
Por: Jorge Humberto Fernandes
Cabo Verde possui uma singularidade que ainda não transformou plenamente em força política e estratégica: é um país cuja Nação é territorialmente muito maior do que o Estado. Uma parte expressiva da sociedade cabo-verdiana vive fora das ilhas, trabalha, estuda, empreende, produz conhecimento, participa em instituições e constrói influência em diferentes partes do mundo. A diáspora não constitui, portanto, uma periferia sentimental de Cabo Verde. É território humano da Nação.
Todavia, entre reconhecer essa realidade nos discursos e incorporá-la efetivamente na governação existe ainda uma enorme distância.
Durante décadas, construímos uma relação com a emigração baseada sobretudo em três dimensões: remessas, cultura e afetividade. O emigrante ajuda a família, constrói casa, regressa nas férias, financia pequenas iniciativas, preserva a música, a gastronomia e a identidade cabo-verdiana. Tudo isso continua a ser extraordinariamente importante como já vimos referindo. Mas tornou-se insuficiente perante a dimensão, a diversidade e a qualificação alcançadas pelas nossas comunidades.
A questão agora é outra: como transformar a diáspora organizada num ator permanente do desenvolvimento e da governação de Cabo Verde?
Existem associações cabo-verdianas por diversos países, muitas realizam trabalho admirável. Porém, grande parte continua dependente do voluntarismo, de financiamentos ocasionais e da dedicação de pessoas que envelhecem sem que esteja assegurada a regeneração das lideranças.
É preciso e urgente qualificar o associativismo. Isso significa profissionalizar progressivamente as estruturas, capacitar dirigentes, formar gestores associativos, dominar instrumentos de financiamento e de construção de candidaturas a projetos, elaborar candidaturas a fundos nacionais, europeus e internacionais e estabelecer parcerias com municípios, empresas, universidades, fundações, organizações culturais e instituições sociais dos países de acolhimento e internacionais.
Uma associação cabo-verdiana em Lisboa, Paris, Rotterdam, Boston ou Luxemburgo não deveria viver exclusivamente da sua relação com Cabo Verde. Deve tornar-se participante do ecossistema institucional da sociedade onde está instalada, sendo que quanto mais integrada, competente e influente for localmente, maior poderá ser também a sua utilidade para Cabo Verde.
A questão agora é outra: como transformar a diáspora organizada num ator permanente do desenvolvimento e da governação de Cabo Verde? (…) A pergunta decisiva já não deve ser quantos cabo-verdianos vivem nas ilhas e quantos vivem fora delas. A pergunta politicamente mais importante é outra: o que poderá tornar-se Cabo Verde quando conseguir organizar, mobilizar e integrar na sua governação toda a inteligência, influência, conhecimento e capacidade da sua Nação espalhada pelo mundo?
É necessário, por isso, uma mudança conceptual: da associação enquanto espaço de pura convivência para a associação enquanto instituição de desenvolvimento.
Imagine-se uma organização da diáspora capaz de identificar empresários e investidores, mapear profissionais qualificados, apoiar estudantes, acompanhar idosos e famílias vulneráveis, promover cultura, estabelecer geminações, captar financiamento, organizar missões empresariais, desenvolver formação e fornecer informação relevante para a definição das políticas públicas dirigidas às comunidades. Isto, para além do microssocial, voluntarista, circunstancial ou conjuntural.
Deixaria de ser apenas uma associação de emigrantes. Passaria a constituir verdadeira infraestrutura da Nação cabo-verdiana no mundo.
Também por isso a relação entre o Estado e o movimento associativo necessita de amadurecer. As associações não podem transformar-se em extensões partidárias, dependentes da simpatia de quem governa, pelo que enviesa o espírito fundacional do propósito. Nem o Estado deve privilegiar aquelas que lhe estejam política ou pessoalmente mais próximas. Isso destruiria precisamente o que importa construir: autonomia, representatividade, confiança e capacidade institucional.
O desafio é institucionalizar a relação. Cabo Verde poderia desenvolver um Sistema Nacional de Cooperação com o Movimento Associativo da Diáspora, baseado em critérios transparentes de reconhecimento, financiamento, capacitação, avaliação e participação. Não para controlar as associações, mas para aumentar a sua capacidade de intervenção e integrá-las, quando adequado, na construção e execução de políticas públicas.
Nesse quadro, deveria ser estudada a constituição de uma Fundação para o Desenvolvimento e Sustentabilidade do Movimento Associativo na Diáspora, envolvendo o Estado, as associações, os municípios, as empresas, a diáspora empresarial e parceiros internacionais. Uma instituição tecnicamente autónoma, capaz de financiar projetos, formar dirigentes, apoiar candidaturas internacionais, promover a inovação associativa e preparar as novas lideranças.
Porque existe uma pergunta silenciosa: quem dirigirá as associações cabo-verdianas daqui a dez ou vinte anos? Sem juventude não haverá continuidade. É necessário formar uma nova geração de líderes da diáspora, incluindo jovens nascidos nos países de acolhimento que podem já relacionar-se com Cabo Verde de maneira diferente da geração dos pais. Exigir-lhes que reproduzam exatamente a mesma identidade seria condenar o movimento ao envelhecimento. É também Cabo Verde que terá de aprender a relacionar-se com essa nova identidade transnacional.
Existe depois uma dimensão fundamental: conhecimento. Com metodologias comuns e rigorosa proteção dos dados, as associações poderão contribuir para diagnósticos periódicos que permitam substituir políticas genéricas por intervenções sustentadas em conhecimento real. Governar a diáspora sem conhecer a diáspora é governar uma abstração.
Por que não realizar periodicamente Encontros Estratégicos do Movimento Associativo Cabo-Verdiano, organizados por áreas, dos quais resultem propostas concretas para políticas públicas? Por que não criar redes internacionais entre associações cabo-verdianas e organizações congéneres? Por que não transformar parte desse movimento numa poderosa plataforma de diplomacia económica, cultural e de influência?
Talvez esteja aqui uma das mudanças de paradigma de que Cabo Verde necessita: deixar de contar apenas a população residente e começar a organizar estrategicamente a sua população global.
Não para instrumentalizar a diáspora. Não para governá-la a partir da Praia. Mas para desenvolver uma governação em rede na qual Governo, municípios, associações, empresas, universidades, profissionais e comunidades emigradas participem numa arquitetura comum de desenvolvimento.
A diáspora cabo-verdiana já demonstrou que sabe sobreviver, integrar-se, trabalhar, enviar recursos e preservar identidade. O próximo desafio é qualitativamente diferente: organizar influência, conhecimento, investimento, solidariedade e capacidade de intervenção. As associações podem constituir a infraestrutura dessa transformação.
Porque a pergunta decisiva já não deve ser quantos cabo-verdianos vivem nas ilhas e quantos vivem fora delas.
A pergunta politicamente mais importante é outra: o que poderá tornar-se Cabo Verde quando conseguir organizar, mobilizar e integrar na sua governação toda a inteligência, influência, conhecimento e capacidade da sua Nação espalhada pelo mundo?
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9 agosto de 2026

