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O setor dos transportes e a possível revolução no desporto nacional

Por: William Sena Vieira

Desde os primeiros encontros desportivos entre ilhas, no início do século XX, os transportes fazem parte da própria história do desporto cabo-verdiano. Durante décadas, viajar de barco foi uma condição indispensável para que equipas, atletas e dirigentes pudessem competir fora da sua ilha.

Hoje, com um sistema desportivo muito mais desenvolvido, esta realidade tornou-se ainda mais complexa. Campeonatos nacionais significam deslocações regulares de atletas, árbitros, treinadores, dirigentes e equipamentos, com custos que pesam nos orçamentos de clubes e federações, atingindo entre 50 a 60% do Orçamento para esses campeonatos.

Por isso, uma eventual melhoria dos transportes interilhas poderá representar muito mais do que uma melhoria da mobilidade nacional. Singifica uma mudança estruturante no desporto nacional

Transportes mais acessíveis, regulares e previsíveis poderiam reduzir custos, libertar recursos para formação e desenvolvimento, facilitar a circulação dos equipamentos e permitir que mais adeptos acompanhassem os seus clubes. Mais adeptos poderão significar mais público, mais receitas e até novas oportunidades para o turismo desportivo.

Num país continental, organizar uma competição nacional significa, em grande medida, resolver o problema das ligações terrestres. Em Cabo Verde, a realidade é outra. Uma competição nacional depende necessariamente das ligações marítimas e aéreas, dos seus horários, da disponibilidade, dos custos e da capacidade de transportar não apenas pessoas, mas também equipamentos e todo o material necessário à realização dos eventos.

Por isso, uma eventual melhoria estrutural dos transportes poderá representar uma mudança importante  para o desporto nacional.

Se houver maior frequência, regularidade, previsibilidade e preços mais acessíveis, clubes e federações poderão reduzir uma parcela importante dos custos actualmente associados às deslocações. Recursos que hoje são absorvidos pela logística poderão ser canalizados para outras áreas: formação, arbitragem, qualificação de treinadores, equipamentos, comunicação, marketing, apoio aos atletas e melhoria da organização das competições.

A mudança poderá ser igualmente importante na gestão. Uma federação que conheça antecipadamente os custos e as condições das suas deslocações consegue planear melhor a época, elaborar orçamentos mais rigorosos e negociar soluções de transporte com maior antecedência. A previsibilidade logística deixa, assim, de ser apenas uma questão operacional e passa a ser uma ferramenta de gestão desportiva.

Transportes mais acessíveis, regulares e previsíveis poderiam reduzir custos, libertar recursos para formação e desenvolvimento, facilitar a circulação dos equipamentos e permitir que mais adeptos acompanhassem os seus clubes. Mais adeptos poderão significar mais público, mais receitas e até novas oportunidades para o turismo desportivo.

Mas a transformação não terminaria nos clubes e nas federações. Poderia chegar às bancadas.

Durante muitos anos, acompanhar uma equipa numa deslocação interilhas significou, para muitos adeptos, enfrentar custos de transporte, alojamento e alimentação que tornavam essa possibilidade pouco acessível. Transportes mais baratos e previsíveis poderiam criar uma nova cultura de acompanhamento dos clubes fora da ilha de origem.

Mais adeptos nos estádios e pavilhões significariam potencialmente mais receitas de bilheteira, maior consumo local e maior atractividade das competições. Hotéis, restaurantes, comércio e empresas de transporte poderiam igualmente beneficiar.

É neste ponto que a melhoria dos transportes deixa de ser apenas uma questão logística e passa a integrar uma visão mais ampla de economia do desporto e turismo desportivo.

Há ainda uma dimensão particularmente importante: a circulação dos próprios meios necessários à competição. Equipamentos, material médico, material técnico e outros recursos poderiam ser enviados antecipadamente para os locais dos eventos, reduzindo riscos e permitindo uma organização mais profissional.

As federações poderiam, inclusive, apresentar os seus calendários competitivos com antecedência aos operadores marítimos e aéreos, permitindo negociar tarifas específicas para atletas, árbitros, treinadores, dirigentes e equipamentos. Poderiam também ser criados mecanismos de reserva antecipada para as principais competições nacionais.

Estaríamos, neste caso, perante uma verdadeira Logística Desportiva Nacional: uma articulação entre calendário competitivo, transportes, clubes, federações e operadores, com o objectivo de reduzir custos e tornar a circulação desportiva mais previsível.

É precisamente aqui que surge a principal dúvida.

Se os transportes se tornarem mais acessíveis, a procura poderá aumentar. Mais pessoas poderão viajar, mais adeptos poderão acompanhar os seus clubes e mais competições poderão ser realizadas com maior circulação entre as ilhas.

Mas estará a oferta preparada para responder a essa procura?

Cabo Verde possui um mercado relativamente pequeno e uma capacidade de transporte que não é ilimitada. O número de barcos e aeronaves, a frequência das ligações e a capacidade disponível terão de acompanhar uma eventual expansão da procura. Caso contrário, poderemos simplesmente substituir um problema por outro: deixar de enfrentar sobretudo a questão do preço para passar a enfrentar a questão da disponibilidade.

Esta preocupação torna-se ainda mais relevante quando se considera que as competições desportivas não acontecem isoladamente. Um mesmo fim de semana pode concentrar jogos de futebol, basquetebol, voleibol, andebol ou outras modalidades, envolvendo atletas, árbitros, treinadores e dirigentes, precisamente nos períodos em que também existe procura turística e comercial.

A questão, portanto, não é apenas transportar mais barato. É garantir que exista capacidade para transportar mais, com regularidade e previsibilidade.

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