PUB

Colunistas

Oficializar o crioulo: um passo histórico que exige consenso

Por: António Delgado  Medina*

“As nações também se constroem pelas palavras com que escolhem contar a sua própria história”

O recente discurso do Primeiro-Ministro de Cabo Verde em língua cabo-verdiana, no Parlamento Nacional, marcou um momento simbólico na vida política do país. Independentemente das diferentes leituras que o gesto possa suscitar, trouxe novamente para o centro do debate uma questão antiga e decisiva: estará Cabo Verde preparado para oficializar a sua língua materna?

Esta é uma reflexão que exige serenidade e sentido de Estado. A oficialização da língua cabo-verdiana não constitui apenas uma decisão linguística; representa uma escolha histórica que envolve a identidade nacional, a cultura, a educação e o futuro da República.

Durante séculos, o crioulo foi a língua da família, da convivência, da música, da literatura oral e da emigração. Foi através dela que gerações de cabo-verdianos preservaram memórias, transmitiram valores e mantiveram viva a ligação à terra, mesmo quando a vida os levou para outros continentes. Poucos símbolos exprimem de forma tão autêntica a alma de Cabo Verde.

Valorizar esse património é um imperativo nacional. Contudo, oficializar uma língua é muito mais do que aprovar uma lei. Exige investigação científica, planeamento linguístico, produção de materiais didáticos, formação de professores e, acima de tudo, consenso social. As línguas não se consolidam por decreto; consolidam-se quando os seus falantes se reconhecem nelas.

É precisamente aqui que reside o maior desafio cabo-verdiano.

O nosso crioulo é uno na sua origem, mas plural na sua expressão. (…) Por isso, o debate não deve centrar-se em saber qual variante deve prevalecer, mas em encontrar um modelo suficientemente inclusivo para que todos os cabo-verdianos se sintam representados.

O nosso crioulo é uno na sua origem, mas plural na sua expressão. Cada ilha preservou formas próprias de pronunciar, construir frases e enriquecer o vocabulário. Essa diversidade não é um obstáculo a ultrapassar; é um património a preservar. Por isso, o debate não deve centrar-se em saber qual variante deve prevalecer, mas em encontrar um modelo suficientemente inclusivo para que todos os cabo-verdianos se sintam representados.

A política linguística é uma política de Estado. Os governos passam, os parlamentos renovam-se, mas a língua permanece. Decisões desta natureza devem nascer do diálogo entre linguistas, escritores, professores, universidades, instituições culturais e representantes de todas as ilhas. Quanto maior for o consenso, mais sólida será a legitimidade da futura oficialização.

Importa também afastar um falso dilema que, por vezes, condiciona o debate público. Valorizar o crioulo não significa diminuir a importância da língua portuguesa. Pelo contrário, ambas podem e devem coexistir de forma complementar. O crioulo reforça a identidade nacional e aproxima os cidadãos das instituições; o português continua a ser uma ferramenta indispensável para o ensino superior, a produção científica, a diplomacia e a integração de Cabo Verde no espaço da lusofonia.

As sociedades mais maduras não escolhem entre a tradição e a modernidade; procuram harmonizá-las. Cabo Verde sempre soube construir pontes entre diferentes culturas, continentes e sensibilidades. Não há razão para que não consiga fazer o mesmo no domínio da sua política linguística.

A oficialização da língua cabo-verdiana poderá vir a constituir um dos marcos mais importantes da nossa história contemporânea. Mas a sua grandeza dependerá menos da rapidez da decisão do que da qualidade do processo. O verdadeiro sucesso não estará apenas em aprovar uma lei, mas em construir uma solução amplamente partilhada, que respeite a diversidade linguística do arquipélago e fortaleça o sentimento de pertença de todos os cabo-verdianos.

Porque, no fim de contas, uma língua nacional cumpre plenamente a sua missão quando une um povo, preserva a sua memória e ajuda a construir o seu futuro. Se conseguirmos oficializar a língua cabo-verdiana sem que nenhum cabo-verdiano deixe de se reconhecer  nela, teremos feito muito mais do que escrever uma nova página na Constituição. Teremos reforçado uma das mais belas páginas da construção da Nação cabo-verdiana.

4 de agosto de 2026

*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

PUB

PUB

PUB

To Top