
Por: Estêvão Rodrigues
Cabo Verde é pequeno em território, mas não é pequeno enquanto Nação. A nossa geografia ultrapassa as ilhas e prolonga-se pelos cinco continentes através de uma Diáspora que, ao longo de gerações, construiu comunidades, empresas, carreiras e redes em importantes mercados do mundo. Esta realidade deveria estar no centro da nossa estratégia de desenvolvimento.
Durante dois mandatos, tive a honra de representar no Parlamento cabo-verdiano os eleitores do Círculo de África. Essa experiência permitiu-me conhecer de perto as comunidades cabo-verdianas no continente e acompanhar as suas preocupações e potencialidades. Por isso, coloco uma questão simples: estamos a aproveitar o enorme potencial económico da nossa Diáspora?
Da remessa ao investimento
Durante décadas, a relação económica entre Cabo Verde e a Diáspora ficou excessivamente centrada nas remessas. Elas são fundamentais para famílias, educação, saúde, habitação e consumo, além de expressarem a solidariedade dos Cabo-verdianos no exterior.
Mas a Diáspora vale muito mais do que aquilo que envia. A pergunta estratégica já não deve ser apenas “Quanto dinheiro a Diáspora envia para Cabo Verde?”, mas “Quanto podemos criar juntos?”
A riqueza da Diáspora está também no conhecimento, experiência profissional, empresas, tecnologias, mercados, contactos e capacidade de abrir portas. Temos espalhada pelo mundo uma rede humana que os próprios Cabo-verdianos construíram ao longo de gerações. Cabe agora ao Estado transformar esse património num activo estratégico de desenvolvimento.
Uma Nação que não termina nas ilhas
Um Cabo-verdiano que vive no exterior não deve ser visto apenas como alguém que deixou Cabo Verde, vota e envia remessas. Existem várias gerações de Cabo-verdianos e seus descendentes que mantêm fortes ligações com o país e participam activamente nas sociedades onde vivem.
Temos empresários, investidores e profissionais qualificados em diversas áreas.
Um empresário cabo-verdiano no exterior pode facilitar negócios, abrir mercados e criar parcerias. A questão é transformar esta capacidade de ligação numa política económica.
Cabo Verde global
Defendo que o Governo lance uma iniciativa nacional: Cabo Verde Global – Programa de Financiamento e Mobilização Económica da Diáspora.
O objectivo é transformar a Diáspora cabo-verdiana numa plataforma global de investimento, empreendedorismo, inovação e internacionalização da economia nacional.
Não se trata de pedir mais dinheiro à Diáspora. Trata-se de criar condições para que o capital, o conhecimento, as competências e as redes que ela já possui gerem mais valor para Cabo Verde.
O Governo deve negociar com o Mundo
Cabo Verde tem experiência na mobilização de recursos junto de instituições financeiras internacionais. O Governo deveria apresentar ao Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento, Banco Europeu de Investimento, FIDA e outros parceiros uma proposta específica para financiar o empreendedorismo e o investimento da Diáspora.
Linhas de crédito, garantias, capital semente, co-investimento e assistência técnica podem reduzir o custo e o risco do financiamento e permitir que projectos viáveis saiam do papel.
A pergunta estratégica já não deve ser apenas “Quanto dinheiro a Diáspora envia para Cabo Verde?”, mas “Quanto podemos criar juntos?” Defendo que o Governo lance uma iniciativa nacional: Cabo Verde Global – Programa de Financiamento e Mobilização Económica da Diáspora. O objectivo é transformar a Diáspora cabo-verdiana numa plataforma global de investimento, empreendedorismo, inovação e internacionalização da economia nacional
Um Fundo Cabo Verde Global
Deveria ser estudada a criação de um Fundo Cabo Verde Global para a Diáspora, com gestão profissional, critérios transparentes e independência operacional.
O Fundo apoiaria empresas, inovação e projectos produtivos com potencial de crescimento e internacionalização, privilegiando tecnologia, economia azul, energias renováveis, turismo, agricultura, indústrias criativas e exportação de bens e serviços.
Não devemos financiar simplesmente ideias, mas projectos viáveis e sustentáveis. O financiamento deve ser acompanhado de assistência técnica, análise de mercado e avaliação de riscos. Não pode haver espaço para crédito distribuído por critérios políticos ou pessoais.
A diáspora como plataforma de internacionalização
Cabo Verde não conseguirá competir internacionalmente pela dimensão do seu mercado interno. Pode, contudo, competir pela capacidade de estar ligado a muitos mercados.
Uma empresa cabo-verdiana que queira exportar alimentos, software, serviços ou produtos culturais precisa de clientes, parceiros e canais de distribuição. A Diáspora pode ajudar a abrir essas portas.
Defendo, por isso, uma Rede Mundial de Empresários Cabo-Verdianos: uma rede orientada para negócios concretos, aproximando empresários, investidores, instituições financeiras, universidades e empresas.
Mobilizar a poupança da prória diáspora
Cabo Verde deve criar condições para que a própria Diáspora participe directamente no financiamento do desenvolvimento nacional.
Obrigações da Diáspora, fundos de investimento e mecanismos de co-investimento, enquadrados na legislação, podem mobilizar a poupança de pequenos e grandes investidores cabo-verdianos e associá-la a recursos de instituições financeiras internacionais.
Deste modo, a Diáspora deixará de ser vista apenas como fonte de remessas para passar a ser também investidora e parceira no futuro económico do país.
Uma política de Estado
Esta não pode ser apenas uma iniciativa de Governo ou de uma legislatura. Deve ser uma política de Estado, construída com o sector privado, instituições financeiras, universidades, municípios e organizações da Diáspora, assente em regras claras, transparência, metas e prestação de contas.
Não precisamos de uma grande estrutura burocrática. Precisamos de começar: mapear a Diáspora empresarial, identificar competências, capitais e mercados, seleccionar países prioritários, negociar financiamento internacional e lançar um programa-piloto.
A Diáspora, as empresas, o conhecimento, o capital e as redes já existem. Falta uma estratégia nacional capaz de transformar esse património em desenvolvimento.
É tempo de agir
Durante décadas, a Diáspora ajudou Cabo Verde a sobreviver. Agora precisamos de criar condições para que ela ajude o país a crescer, produzir, inovar e competir.
Como antigo Deputado Nacional eleito pelo Círculo de África e como Cabo-verdiano profundamente ligado às nossas comunidades no exterior, considero que esta mudança de paradigma já não pode ser adiada.
A Diáspora não pode continuar a ser vista apenas como fonte de remessas. É nossa parceira estratégica e uma extensão económica de Cabo Verde no mundo.
A pergunta já não deve ser quanto a Diáspora pode enviar. Deve ser quanto podemos investir, produzir, inovar e conquistar juntos.
É tempo de transformar os milhões de ligações que os Cabo-verdianos construíram nos cinco continentes em capital humano, empresarial e financeiro para o desenvolvimento nacional.
É tempo de construir um verdadeiro Cabo Verde Global.
Luanda, 31 de agosto de 2026

