
Por: Rui Pereira
– O problema de Cabo Verde será a falta de recursos
– ou a falta de ambição estratégica?
Há perguntas que parecem absurdas até começarmos a pensá-las seriamente. E se Cabo Verde fosse Singapura? Não na história, geografia ou sistema político. Cabo Verde não deve copiar Singapura. A provocação é outra: o que separa um pequeno país condicionado pela escassez de outro capaz de transformar limitações em poder económico?
Durante 51 anos, explicámos Cabo Verde pelas suas fragilidades: somos pequenos, arquipelágicos, distantes, pobres em recursos naturais, com mercado reduzido e enorme vulnerabilidade externa. Tudo isso é verdade. Mas talvez tenhamos repetido essas verdades tantas vezes que deixaram de ser apenas diagnóstico e começaram a funcionar como álibi nacional para aquilo que não conseguimos transformar. Singapura também enfrentou pequenez, dependência externa e enorme incerteza. A resposta não foi construir uma filosofia da impossibilidade. Foi construir capacidade.
É aqui que a comparação se torna desconfortável. Cabo Verde conquistou a independência em 1975 e alcançou democracia, estabilidade, paz, educação, infraestruturas e credibilidade internacional. São conquistas inegáveis. Mas reconhecê-las não pode impedir a pergunta: produzimos, em 51 anos, toda a transformação que seria razoável exigir às sucessivas elites dirigentes?
Talvez não. Os grandes problemas nacionais são persistentemente semelhantes: transportes interilhas, água, energia, habitação, produtividade, industrialização, Administração Pública, emprego jovem, dependência alimentar e emigração. Mudaram governos, programas e dirigentes; multiplicaram-se planos, estratégias, estudos e conferências. Mas demasiados problemas atravessaram gerações políticas quase intactos.
Porquê? Talvez o maior défice cabo-verdiano nunca tenha sido apenas de recursos. Porventura tenha sido de pensamento e atitude de topo – de nível estratégico do país. Governámos muito. Administrámos muito. Planeámos insuficientemente. Antecipámos ainda bastante menos.
Um país pequeno não pode permitir-se esse luxo. Aqui, cada década perdida pesa demasiado; cada investimento errado consome recursos escassos; cada reforma adiada aproxima milhares de jovens da conclusão mais perigosa que uma Nação pode produzir: para realizar o meu futuro, tenho de sair daqui.
Talvez seja esta a verdadeira comparação com Singapura. Não os arranha-céus ou o rendimento. A mentalidade estratégica. Singapura compreendeu que, não possuindo grande território, recursos ou mercado interno, teria de construir aquilo que podia controlar: instituições eficientes, educação, logística, conhecimento, infraestrutura, execução e competitividade internacional.
E Cabo Verde?
Talvez tenhamos desenvolvido uma síndrome da impossibilidade: transformar condicionantes geográficas numa explicação permanente para o desenvolvimento incompleto. Não temos água. Não temos petróleo. Somos ilhas. Somos poucos. Estamos longe.
Mas precisamente por isso deveríamos ter sido extraordinariamente melhores naquilo que dependia de nós.
Se somos pequenos, a Administração Pública deveria ser exemplarmente ágil. Se somos ilhas, transportes e conectividade deveriam ser obsessões nacionais. Se não temos combustíveis fósseis, as renováveis deveriam ser prioridade de soberania. Se a água é escassa, dessalinização, reutilização e eficiência deveriam colocar-nos na fronteira tecnológica. Se o mercado é reduzido, diáspora, exportação e economia digital deveriam ampliá-lo.
As nossas fragilidades deveriam ter produzido excelência. Produziram?
Quando um problema permanece durante décadas, deixa de ser apenas técnico. Passa a ser problema de Estado. E quando sucessivos governos conhecem as mesmas vulnerabilidades, produzem diagnósticos semelhantes e continuam a entregá-las à geração seguinte, já não basta responsabilizar a geografia. É preciso responsabilizar decisões, lideranças e elites.
PAICV e MpD governaram praticamente toda a história do Cabo Verde independente. Ambos possuem realizações. Mas ambos têm igualmente de responder pelo que o país ainda não conseguiu construir. A alternância democrática é uma conquista. Mas alternar governos não basta se continuarmos a alternar gestores dos mesmos problemas.
Talvez Cabo Verde necessite agora de uma transição mais profunda: passar do Estado predominantemente administrativo para um Estado estratega, desenvolvimental e rigorosamente democrático. Não um Estado maior. Um Estado melhor. Menos burocrático, mais inteligente e obcecado por resultados; capaz de selecionar competência, premiar mérito, utilizar ciência, dados e inteligência artificial, avaliar políticas e pensar décadas à frente.
Um Estado onde água converse com energia; educação com economia; turismo com território; transportes com coesão nacional; diáspora com política externa; universidades com inovação. Sobretudo, um Estado que saiba executar, co uma Estratégia Nacional.
Porque talvez exista outra fragilidade que evitamos discutir: Cabo Verde tornou-se competente em reproduzir políticas públicas, mas insuficientemente competente em transformá-las em realidade sustentável, no longo prazo. Temos documentos para quase tudo. Precisamos de resultados de consequências e utilidade duradoiros.
É aqui que Singapura mais nos provoca. Não porque devamos importar o seu modelo, mas porque demonstra que a pequenez não condena uma Nação à irrelevância. Pequenos países podem pensar grande, concentrar recursos, construir competências, atrair talento e transformar localização em vantagem.
Cabo Verde possui democracia, estabilidade, diáspora, localização atlântica, proximidade à África Ocidental, relação com a Europa e credibilidade internacional. Não partimos do zero. A questão é o que fazemos com aquilo que temos.
Pois, a grande transformação dos próximos 25 anos deva começar precisamente aí: abandonar a cultura de administrar vulnerabilidades e construir uma cultura de produzir possibilidades.
A independência deu-nos soberania política. A próxima independência terá de ser estratégica, produtiva, tecnológica e mental.
Por isso, talvez a pergunta inicial esteja errada. Cabo Verde não precisa de ser Singapura. Precisa de ser radicalmente Cabo Verde — mas um Cabo Verde que finalmente leve a sério as consequências da sua pequenez.
Um país pequeno não pode pensar pequeno. Não pode decidir tarde. Não pode desperdiçar talento nem aceitar que os mesmos problemas atravessem gerações. Sobretudo, não pode continuar a explicar o futuro pelas limitações do passado.
A pergunta verdadeiramente inquietante é outra: e se Cabo Verde tivesse sido, durante estas cinco décadas, tão exigente, estratégico, antecipador e ambicioso quanto as suas próprias fragilidades obrigavam? Onde estaríamos hoje?
Talvez nunca saibamos.
Mas teremos de responder pelo futuro:
Onde queremos estar em 2051 — e quem responderá perante a História se ainda estivermos, nessa altura, a explicar Cabo Verde pelas mesmas impossibilidades de 1975?

