
Por: Estêvão Rodrigues
Setembro entrou e, mais uma vez, o povo rural das ilhas cabo-verdianas olha para o céu, esperando sinais das primeiras chuvas. Aguarda-se que sejam suficientes para fazer germinar o milho e o feijão, a consociação que há gerações domina a agricultura de sequeiro do arquipélago.
Também nas cidades e vilas se espera pela chuva. Quando o ano agrícola é bom, as nascentes recuperam, as cisternas enchem-se, os mercados recebem mais produtos frescos e os preços tornam-se mais acessíveis.
O destino quis que eu nascesse num tempo e num lugar onde a falta de chuva foi — e continua a ser — uma das maiores preocupações de Cabo Verde e de tantos países do Sahel.
Quem nasceu e cresceu nestas ilhas sabe que a chuva nunca foi apenas chuva.
A chuva é esperança.
Esperamos por ela para lançar a semente à terra, encher as cisternas, dar água aos animais e pedir à terra aquilo de que precisamos para viver.
Quando não vem, ou chega tarde, o coração aperta. A terra seca, as culturas não crescem, os animais sofrem e muitas famílias são obrigadas a procurar longe aquilo que a sua própria terra não conseguiu dar.
Durante gerações, aprendemos a conviver com a seca e a resistir. O agricultor cabo-verdiano conhece a terra, as pedras, as encostas, os ventos e os sinais do céu. Esse conhecimento é uma riqueza que deve caminhar lado a lado com a ciência.
Quero acreditar, como sonhava o poeta Nhu Naxu, que chegará o dia em que conseguiremos produzir milho mesmo quando a chuva for pouca — ou até quando ela faltar.
Estamos em Setembro de 2026. Mais uma vez pedimos a São Pedro e a Deus chuva suficiente para regar os campos, alimentar as nascentes e reencher os lençóis freáticos, cuja escassez já começa a fazer-se sentir nas torneiras de muitas cidades.
Mas há uma pergunta que não podemos continuar a evitar:
Podemos continuar a esperar pela chuva para produzir?
Penso que não.
Cabo Verde mudou. Temos hoje conhecimento, tecnologia, barragens, sistemas de rega e energia solar. Não podemos mudar o clima nem aumentar a superfície das nossas ilhas, mas podemos mudar a forma como utilizamos os poucos recursos que temos.
A seca faz parte da nossa realidade, mas não pode ser uma sentença.
Precisamos de sementes resistentes à seca, culturas adaptadas a cada ilha, conservação da humidade do solo, pequenas estufas e sistemas de rega eficientes, sobretudo gota a gota.
Precisamos, acima de tudo, de aprender a tirar mais alimento de cada gota de água.
Num país como Cabo Verde, nenhuma gota deveria ser desperdiçada. Precisamos de construir e recuperar barragens, diques, reservatórios e cisternas, proteger as nascentes e conservar os solos.
Onde for técnica e economicamente viável, a dessalinização poderá complementar outras fontes de água, acompanhada por sistemas de rega eficientes e energias renováveis.
O mesmo sol que seca os nossos campos pode ajudar-nos a produzir a energia necessária para levar água até eles.
Não precisamos de produzir tudo. Precisamos de produzir melhor aquilo que podemos produzir bem. Devemos escolher culturas adatadas às nossas condições, que utilizam menos àgua e tenham mercado. O turismo pode ser um mercado. A Diàspora pode ser outro.
O turismo pode ajudar o agricultor
Cabo Verde tem hoje uma oportunidade que não podemos desperdiçar: o turismo.
Todos os dias chegam turistas às nossas ilhas. Consomem frutas, legumes, peixe, carne, leite e muitos outros produtos. Entretanto, agricultores enfrentam dificuldades para vender a sua produção, enquanto hotéis e restaurantes importam uma parte significativa dos alimentos que consomem.
Não precisamos de fechar as portas às importações. Precisamos de perguntar:
Aquilo que podemos produzir aqui, por que razão não havemos de produzir mais?
Se os hotéis precisam de alimentos todos os dias, devemos aproximar o agricultor do mercado turístico. O agricultor precisa de saber o que o mercado procura, em que quantidade e com que qualidade. O hotel precisa de confiar que receberá regularmente aquilo que foi contratado.
Produzir para um mercado conhecido é muito diferente de produzir sem saber quem vai comprar.
O dinheiro gerado pelo turismo deve beneficiar mais as comunidades rurais e os homens e mulheres que trabalham a terra.
Juntos, os agricultores têm mais força
Um pequeno agricultor, sozinho, dificilmente consegue comprar máquinas, instalar sistemas modernos de rega, armazenar a produção, garantir transporte, transformar produtos ou negociar com um grande hotel.
É aqui que as cooperativas podem fazer a diferença.
Uma cooperativa forte pode comprar meios de produção, partilhar máquinas, organizar a rega, armazenar, facilitar o transporte e negociar melhores preços.
Precisamos de cooperativas que sejam verdadeiras organizações económicas dos agricultores, e não apenas associações no papel.
Sozinho, o agricultor vende. Juntos, os agricultores podem negociar.
Mas a agricultura não termina na colheita.
Sem armazenamento adequado, frio, transporte regular, embalagem e transformação, uma parte da produção perde-se.
O tomate pode transformar-se em molho. A fruta pode virar sumo ou compota. O leite pode transformar-se em queijo, como acontece com o já famoso queijo da vulcânica Ilha do Fogo.
Aquilo que hoje se perde pode transformar-se em rendimento.
Produzir melhor, não produzir tudo
Cabo Verde nunca será um grande país agrícola. A terra é pouca e a água é escassa. Mas isso não significa desistir.
Não precisamos de produzir tudo. Precisamos de produzir melhor aquilo que podemos produzir bem.
Devemos escolher culturas adaptadas às nossas condições, que utilizem menos água e tenham mercado.
O turismo pode ser um mercado. A Diáspora pode ser outro. O mercado interno também.
Precisamos igualmente de fazer com que os nossos jovens olhem para a agricultura como uma profissão digna, moderna e capaz de gerar rendimento.
Agricultura é trabalho. É conhecimento. Pode ser negócio. É alimento. É também uma forma de proteger a terra e garantir a continuidade das comunidades rurais.
Para isso precisamos de crédito, assistência técnica, investigação, água e mercados, apoiados por políticas públicas consistentes.
A agricultura deve ser uma política de Estado.
Chegou o momento de mudar a pergunta
Talvez esteja na hora de deixar de perguntar apenas:
“Quando virá a chuva?”
E começar a perguntar:
“O que podemos fazer para produzir quando a chuva vier e continuar a produzir quando ela não vier?”
A chuva continuará a ser uma bênção. Continuaremos a olhar para o céu e a agradecer quando as primeiras gotas caírem sobre a terra seca.
Mas não podemos deixar o nosso futuro apenas nas mãos da chuva.
Podemos guardar a água. Proteger a terra. Usar a ciência. Organizar os agricultores. Ligar o campo ao turismo. Transformar aquilo que produzimos.
Cabo Verde não precisa de deixar de esperar pela chuva.
Precisa é de deixar de depender apenas dela.
Porque a chuva é uma bênção.
Mas o trabalho, o conhecimento, a organização e a coragem do agricultor também podem fazer florescer a nossa terra.

