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Obituário Filomena Silva, a destemida do jornalismo cabo-verdiano

Com a morte da antiga jornalista e directora do jornal A Semana, Filomena Silva, na semana passada, na Praia, é uma parte da história do jornalismo feito em Cabo Verde que se fecha. O seu papel foi fulcral para a imprensa cabo-verdiana, em momentos muitos particulares da vida política, económica e social do país. Foram anos a fazer jornalismo que atravessaram o regime de partido único, a abertura democrática e a alternância política, com todos os desafios inerentes para os profissionais da comunicação social. 

Depois da sua formação em Cuba, Filomena Silva integrou nos finais dos anos 1980 a redacção do jornal Voz di Povo, órgão onde primeiro revelou as suas qualidades profissionais e a forte personalidade que haveriam de marcar a sua imagem pública, chegando a ser chefe de redacção. É redutor dizer apenas que Filomena Silva, falecida na semana passada, de doença prolongada, passou pelo Voz di Povo e foi directora do A Semana.

Só quem trabalhou a seu lado terá uma ideia real de todos os seus princípios e qualidades profissionais, mas também do seu temperamento pessoal. Extinto o VP, em Novembro de 1992, Filomena foi convidada um ou dois anos depois a dirigir o A Semana, com a saída do então director Jorge Soares, que emigrou para os EUA.

Naturalmente que o colectivo sentiu a diferença no trato da nova directora do jornal. A começar pela sua frontalidade, como lembra o jornalista Álvaro Ludgero Andrade, ao telefone com o A NAÇÃO, a partir dos EUA, onde reside.

“Nós discutimos muito, o que é normal quando se tem opiniões diferentes, mas depois vinha um abraço e esquecíamos tudo; eu guardo da Filó a imagem de uma mulher que lutou pelos seus princípios, era uma pessoa que também reconhecia os seus limites, podia reconhecer os seus erros, embora sem dar o ‘braço a torcer’; mas na prática, sim, ela escutava, entendia, mas os seus propósitos, ela tinha tudo isso firme e perseguia esses objectivos.”

O que, adianta ALA, era algo muito bom naquele tempo, no A Semana: “Podíamos abrir o debate na redacção, falávamos, eu, ela, o José Vicente, às vezes a Marilene, na parte final o jovem Hermínio Silves, conversávamos, abertamente, mas ela já sabia o que queria, e A Semana afirmou-se também um pouco por isso”.

Objectiva e intransigente

Filomena Silva ficou, igualmente, conhecida como uma mulher intransigente com o jornalismo, com todas as consequências que isso poderia ter, inclusive, para com as suas amizades.

 “Durante aqueles dez anos éramos o único jornal, a sério, com garra, durante muito tempo…”, continua Álvaro Andrade. “O Voz di Povo foi encerrado em 1992, veio o Novo Jornal Cabo Verde, o Correio 15, que duraram pouco, e mesmo com o Horizonte, era o A Semana quem dava as cartas; e claro, qualquer posição do semanário tinha de ser automaticamente um pouco anti-governo, anti-sistema, era normal; então, mesmo gente que discordava fortemente com ela, a Filó mantinha essa relação e conseguia falar com as pessoas, mas mantendo a sua intransigência; gente muito amiga da Filó, por exemplo o jornal ‘bateu’ nessas pessoas muito próximas, sempre no sentido da informação correcta e objectiva, independentemente do resto.” E foi esta linha de orientação profissional e ética que fez de Filomena Silva uma referência para muitos dos colegas que com ela trabalharam.

A forma de discutir abertamente os problemas é algo que José Vicente Lopes, hoje editor executivo do A NAÇÃO, também faz questão de lembrar. “Eram nas reuniões que definíamos a pauta, cada um trazia as suas propostas, discutíamos e depois era sair ao terreno”.

“A Filó era destemida, tinha garra, vivia o jornalismo 24 horas por dia, e quando necessário era a primeira a dar o peito às balas”, acrescenta JVL. “Qualquer que fosse a dificuldade, ou o problema, sabíamos que podíamos contar com ela”.

O tempo, segundo JVL, era propício, “início da década de 1990, com um MpD hegemónico, quase sem oposição. Estávamos todos a construir a democracia e o jornal funcionou como um espaço de liberdade, de debates, de resistência, mesmo aqueles que nos chegaram a hostilizar, quando chegou a sua hora de irem para a ‘guilhotina’, tiveram acolhimento nas páginas do A Semana. Mas infelizmente, como às vezes acontece, o jornal pagou também um alto preço pelo seu sucesso, razão mais tarde da sua morte.”

Outro aspecto comum, que todos reconhecem na antiga directora, era o ‘olho’ para a notícia, o faro jornalístico. “Ela olhava para um assunto e identificava num qualquer aspecto dele a notícia, tinha isso muito claro e tentava passar, mas às vezes, pela sua frontalidade e a forma de ser directa, era mais complicado, podia não conseguir, então ela editava o texto na óptica que ela queria; mas a questão da agenda e a independência do jornalismo eram muito importantes para ela”, lembra Álvaro Andrade, que deixou o jornal em 2000, altura em que emigrou para os EUA.

A propósito de faro, conta JVL: “Uma noite, já de madrugada dentro, ainda funcionávamos na Várzea, ao fechar um artigo, o último daquela edição, sobre uma das crises do MpD, em 1994, se não me falha a memória, a Filó lê o texto, olha para mim, e diz-me: ‘Isto está chocho’, no que concordei com ela. Sentamos os dois à frente do computador e produzimos um novo artigo que no dia seguinte colocou o MpD e o país em polvorosa. Não é por acaso que num dos momentos altos dessa crise, que haveria de dar lugar ao PCD, alguém ameaçou numa reunião de militantes incendiar o jornal. Felizmente, não passou disso. A aceitação do jornal nessa altura era tal que à hora de o colocar na rua havia multidão de gente à frente das nossas instalações, na Várzea, à espera, para adquirir o seu exemplar”.

Independência como princípio

Álvaro Ludgero Andrade recorda o princípio da independência, num momento político importante: “Quando Pedro Pires abandona o PAICV, após as eleições de 1991, vem a sucessão no partido e A Semana já estava no caminho, começaram a surgir outras correntes e as pessoas disseram, ‘vocês estão a apoiar Corsino Tolentino’, depois, ‘vocês estão do lado de Aristides Lima’, quando chega a cisão do MpD, fomos acusados de ser pró-PCD, o mesmo com o PRD. Não era nada disso, o jornal tinha a sua posição sobre o assunto, que num momento ou outro ia coincidindo com uma ala, sector ou partido ou outra”.

Filomena Silva chega ao jornal A Semana por volta de 1994, depois da extinção do jornal Voz di Povo e sua integração (por muito pouco tempo) na Direcção-Geral de Comunicação em 1992. Mas a jornalista teria ainda uma passagem pela restauração, num estabelecimento que abriu na Achada de Santo António. E a sua chegada ao semanário vai ser determinante para a dinâmica que o A Semana vai conhecer nos anos seguintes. A começar pela gestão administrativa.

O arranque do jornal ficou marcado por alguma crise e dificuldade financeira inicial, quase falência, e alguns jornalistas mal recebiam, valendo-se de outras colaborações e rendimentos, mas continuando a escrever mais por ‘amor à camisola’.

Os debates organizados pela A Semana (com Jorge Carlos Fonseca, José Leitão da Graça, Onésimo Silveira, José António dos Reis, Arnaldo Silva, Amaro da Luz, entre outros), financiados pela fundação alemã Friedrich Ebert, eram uma forma de ajudar o jornal, neste período difícil. A Semana organizava o debate e editava um suplemento com esta matéria e era uma forma de financiar o mais importante jornal do país.

“Mais do que isso”, pontua JVL, “esses debates ajudaram a democratizar o espaço público cabo-verdiano, uma forma de provar que as pessoas e os políticos de diferentes quadrantes podiam debater sem se insultarem. Isso na altura foi inédito e altamente salutar.”

JMN e Veiga, frente a frente 

Um outro momento igualmente inédito foi quando o jornal decidiu colocar, frente a frente, o então primeiro-ministro, José Maria Neves, e o seu antecessor, Carlos Veiga, num debate de horas. “A ideia foi da Filó”, diz-nos JVL.

“A Filó não gostava de rotina ou de jornalismo de águas paradas. Uma tarde ela vira-se para mim e pergunta-me: ‘Que tal se desafiássemos o José Maria e o Veiga para um debate?’ Apesar de espantado, concordei logo. Depois de discutirmos o assunto, ela vira-se mim e diz-me, ‘tu convences o Zé Maria e deixa o Veiga comigo’. E assim foi… A entrevista foi um tremendo sucesso, nunca se tinha feito nada do género em Cabo Verde. Mesmo aqueles que andaram a pressionar o JMN para não aceitar foram os primeiros a felicitar-nos. No MpD, até hoje, há quem não nos tenha perdoado por termos ‘desenterrado’ Carlos Veiga quando ele estava na reforma. Sobretudo para os políticos de hoje, ou interessados nos problemas de Cabo Verde, encontrarão nesse debate várias pistas para certas questões que ainda nos afligem enquanto país à procura de rumo”.

Estabilidade financeira e referência nacional

Com os anos, e com o seu sucesso, A Semana estabelece-se como jornal de referência nacional, atrai publicidade (apesar de bloqueios institucionais) e melhora a sua tesouraria, chegando inclusive a adquirir as instalações da sua redacção no Palmarejo (actual loja da Samsung), na avenida Santiago, no ano 2000. E algo impensável, para um órgão privado: chegou a ter delegações em São Vicente, Santo Antão e ilha do Fogo, quando nem os meios públicos tinham essa capacidade.

O jornal cresceu, ganhou público leitor, passou a editar o suplemento de economia Cifrão, Lance no desporto, o Especial Magazine de 100 páginas, pelo aniversário a 26 de Abril. Entre outras iniciativas, chegou a produzir um jornal infanto-juvenil, o A Semaninha, dirigido por Marilene Pereira. Foi nele que os então “piquinotis” Geremias Furtado, hoje presidente da AJOC, Cláudia Marques, na Voz da Alemanha, deram os seus primeiros passos, como “jornalistas mirins”.

O jornalista Carlos Santos lembra, em artigo publicado no Santiago Magazine, que “Filomena sabia que a liberdade de imprensa não sobrevive apenas de proclamações constitucionais. Para investigar, deslocar jornalistas, consultar documentos, confrontar fontes e resistir às pressões é preciso haver condições materiais. Uma redacção sem recursos, com profissionais precários e empresas dependentes da publicidade do Estado pode ser formalmente livre e, ainda assim, ter muito pouca liberdade para exercer.”

Por seu lado, Hermínio Silves, um dos mais jovens jornalistas no período alto do A Semana, para onde entrou em 1998, recorda como Filomena também tinha o seu lado humorístico, para quem se lembra, eternizado nas colunas da célebre página 7, o Radar. “De igual modo, era dada a confraternizações, convívios com os trabalhadores, risos, gargalhadas, copos… na segunda-feira entrava com o chip demolidor, como se nunca estivéssemos estado juntos a divertir. Era naqueles dias de medo que renascia em nós, os trabalhadores, o respeito, a admiração, o sentimento de que estávamos perante uma líder de facto. E por muito que gritasse, Filomena Silva tinha um coração bom, era uma pessoa muito justa e realista.”

A passagem de Filomena Silva pela direcção do jornal ficaria também marcada por dezenas de processos judiciais, por parte de entidades públicas, privadas, colectivas e individuais. Um preço que o jornal teve de pagar (chegando a haver ajuda dos leitores para reunir os montantes de indemnizações) no seu percurso de três décadas.

“Numa das condenações, por iniciativa do Germano Almeida”, recorda JVL, “surgiu uma recolha de fundos para pagar a condenação. A solidariedade foi tamanha que a verba angariada ultrapassou o necessário; fora isso, a nossa comunidade nos EUA cotizou-se e comprou uma viatura para o A Semana, um jipe. Nunca se viu coisa igual”.

Passagem pela política

Pouco referida é a passagem de Filomena Silva pela política, tendo integrado as listas do PAICV nas primeiras eleições legislativas multipartidárias, em 1991, como independente. Uma oportunidade que lhe permitiu conhecer o poder por dentro, como tirocínio para passar boa parte da sua vida profissional a escrutiná-lo, como ninguém o fez, a partir da redacção de um jornal.

“Ela estava ainda no Voz di Povo e, como colegas, pediu a minha opinião e eu torci o nariz”, recorda JVL. “Mas felizmente, esse momento de deputada coincidiu com ela na direcção da AJOC e no Parlamento ela fez a primeira interpelação ao governo sobre a liberdade de imprensa em Cabo Verde. O debate que se seguiu foi acalorado, porque os deputados do MpD e os membros do Governo sentiram-se afrontados, mas a Filó saiu-se muito bem. É depois disso que ela assume a direcção do A Semana, com a saída do Jorge Soares. Comecei com o Jorge como colaborador, através de uma coluna, com ela no comando, convidou-me a integrar a redacção. Mais que opinião ela queria que eu me ocupasse sobretudo de reportagens, artigos de fundo, notícias etc…. Fiquei até 2011…”.

Um marco 

“Na verdade”, conclui Hermínio Silves, “a Filomena Silva é um marco do jornalismo cabo-verdiano. Há um antes e um depois de FS, e isso, para mim, é incontestável. Foi teimosa q.b. para não deixar o jornal A Semana acabar nos períodos mais negros do jornalismo independente em Cabo Verde e quando tudo parecia desabar sobre si com processos quase diários na justiça, uma perseguição sem precedentes”.

 

JA

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