
Por: Mário Gonçalves *
O contexto internacional atual reflete uma profunda reconfiguração das dinâmicas de poder e da segurança globais, exigindo reflexões sérias e abordagens cada vez mais pragmáticas por parte dos decisores políticos, especialmente os da periferia sistémica.
No panorama do continente berço, a África Ocidental e o Sahel afiguram-se como palcos de imediatas disputas geopolíticas entre velhas e novas potências globais e regionais, desafiando as lógicas tradicionais e os cânones dominantes das Relações Internacionais.
A institucionalização da Aliança dos Estados do Sahel (AES), por Burkina Faso, Mali e Níger, e a subsequente rutura destes países com a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) – agora consolidada como uma nova e rígida realidade geoinstitucional -, sinalizam não só uma fragmentação institucional sem precedentes na nossa sub-região, mas, acima de tudo, uma reconfiguração do poder e das alianças securitárias que extravasa as fronteiras do interior do continente.
Assiste-se, por um lado, a disputas pelo poder e protagonismo entre os líderes regionais, impulsionadas por fortes alinhamentos ideológicos e geoestratégicos.
Por outro lado, deparamo-nos com rivalidades geopolíticas entre potências tradicionais, nomeadamente as ex-potências coloniais ocidentais, e potências emergentes, como a China, a par da afirmação geopolítica da Rússia, que reclama o seu protagonismo internacional.
Em conjugação, estas dinâmicas desafiam de forma severa o panorama político, económico e securitário regional, com inevitável impacto continental.
As verdades históricas demonstram que o nexo entre a paz, a segurança e o desenvolvimento na África Ocidental e no Sahel tem sido o calcanhar de Aquiles do continente, devido às disputas geopolíticas e de poder entre atores regionais e extrarregionais.
O futuro de Cabo Verde joga-se também na nossa capacidade de ler, antecipar e reagir às mutações no Sahel. A Aliança dos Estados do Sahel veio redesenhar o mapa de poder e segurança regional, e cabe-nos garantir que a nossa política externa tenha a agilidade e a densidade técnica necessárias para navegar estas complexas águas da geopolítica regional
A proliferação de grupos extremistas violentos, que, em muitos casos, atuam como próxies de interesses extrarregionais com raízes diversas, a contestação (em muitos casos legítima) da lógica da democracia liberal e a crescente influência de novos atores globais na esfera económica, política e militar transformam o Sahel num epicentro de volatilidade.
A consolidação da AES desafia, assim, os cânones tradicionais de integração da nossa sub-região, reforçando lógicas soberanistas, com parcerias que desafiam o status quo implementado desde a vaga de independências dos anos 1960.
Para Cabo Verde, um Estado arquipelágico com vulnerabilidades estruturais específicas, este cenário de rutura regional e a consolidação de novos atores e agendas colocam desafios multidimensionais.
Em primeiro lugar, perfila-se o desafio da segurança transnacional. Como palco de disputas, o Sahel pode alimentar redes criminosas transfronteiriças através do tráfico de estupefacientes, do contrabando de armas e da migração irregular. Como plataforma marítima estratégica no Atlântico Médio, Cabo Verde corre o risco de ver a sua Zona Económica Exclusiva (ZEE) e as suas rotas marítimas instrumentalizadas por essas dinâmicas, à medida que a pressão militar se intensifica no interior do continente.
Este transbordo da crise continental para o vetor marítimo potencia ameaças diretas à segurança da navegação e ao controlo oceânico, demonstrando que a segurança das nossas águas, a nossa própria segurança, está intrinsecamente ligada à estabilidade dos nossos vizinhos continentais.
Em segundo lugar, impõe-se um dilema diplomático e institucional. A independência de Cabo Verde foi projetada num continente livre, pacífico e integrado, o que justifica a defesa de uma inserção regional pautada pelo respeito pelo direito internacional, pela promoção da boa governação e pelo diálogo multilateral.
A rutura da CEDEAO e a institucionalização da AES podem, por um lado, enfraquecer a voz do bloco regional nas instâncias internacionais e complicar a cooperação técnica e económica, com reflexos significativos para Cabo Verde. Por outro lado, podem abrir novas oportunidades no que diz respeito à reconfiguração de estratégias económicas, políticas e securitárias, dada a emergência de novos atores, agendas e interesses.
Diante desta realidade, a diplomacia económica e a política de defesa cabo-verdianas necessitam de uma abordagem pragmática e dotada de uma forte componente estratégica.
É fundamental que o país não se limite a ser um mero espetador das decisões tomadas em Abuja, Bamaco, Ouagadougou e Niamey. Cabo Verde deve posicionar-se como um pivô facilitador de pontes diplomáticas, promovendo o diálogo entre as partes com base no respeito mútuo, excluindo cegueiras ideológicas ou apegos aos cânones tradicionais.
Para que esta ambição seja exequível, a nossa diplomacia deve saber articular a nossa Parceria Especial com a União Europeia e a nossa centralidade em fóruns como a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), agindo como um tradutor estratégico e um elo de ligação essencial entre os interesses do Atlântico e a nova realidade do Sahel.
O futuro de Cabo Verde joga-se também na nossa capacidade de ler, antecipar e reagir às mutações no Sahel. A Aliança dos Estados do Sahel veio redesenhar o mapa de poder e segurança regional, e cabe-nos garantir que a nossa política externa tenha a agilidade e a densidade técnica necessárias para navegar estas complexas águas da geopolítica regional.
*Mário Elisandro Correia Gonçalves é Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra, com especialização em Paz e Segurança Regional na África Ocidental. É Professor Auxiliar Convidado na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) e investigador especializado nas dinâmicas de segurança da CEDEAO e do Sahel.

