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Um país de nove ilhas não pode continuar a viver como nove ilhas

Por: Estêvão Rodrigues

Saúdo o reforço da frota marítima anunciado pelo Governo e a intenção de assegurar, a partir de 2027, uma tarifa social de 500 escudos. São medidas importantes, mas devem integrar uma verdadeira Política Nacional de Transporte Marítimo.

Uma passagem barata não resolve o problema se o barco não parte, se não há capacidade, se os horários não são cumpridos ou se as ligações são canceladas. Precisamos de uma rede marítima regular, frequente, previsível, segura e acessível, ligando efectivamente as nove ilhas.

A mobilidade inter-ilhas não é apenas uma questão de transporte. É uma questão de coesão nacional, justiça territorial e igualdade de oportunidades. Viver numa ilha diferente não pode significar ter menos acesso à saúde, educação, emprego, mercados, turismo ou serviços públicos. A insularidade é uma realidade geográfica; não pode transformar-se numa desigualdade de direitos.

Navio Eugénio Tavares, previsto para reforçar a conectividade marítima inter-ilhas de Cabo Verde. Fonte da informação: Expresso das Ilhas / Inforpress, 5 de Agosto de 2026.

O Estado deve planear e regular a rede, definir padrões de serviço, garantir infra-estruturas portuárias adequadas e assegurar, através de contratos de serviço público transparentes, as ligações social e territorialmente indispensáveis que não sejam comercialmente sustentáveis. Aos operadores compete prestar o serviço com eficiência, segurança, qualidade e cumprimento dos horários.

Um Cabo Verde verdadeiramente integrado começa quando o mar que separa as nossas ilhas passa a ser, cada vez mais, o meio que as une

A tarifa de 500 escudos deve significar mais do que uma passagem barata: deve estar associada a um serviço regular e previsível, informação pública, defesa dos passageiros e mecanismos transparentes de compensação.

Passageiros e carga devem ser tratados como duas faces da mesma conectividade. Transportar pessoas, produtos agrícolas, pescado e bens essenciais reduz custos, amplia mercados e cria oportunidades.

Cabo Verde deve também aproveitar a sua posição atlântica para reforçar ligações comerciais com a África Ocidental, Europa, Brasil e EUA.

O objectivo deve ser claro: unir internamente Cabo Verde e projectá-lo externamente.

A coesão territorial não se decreta. Constrói-se ligando pessoas, famílias, comunidades, mercados e oportunidades.

Um Cabo Verde verdadeiramente integrado começa quando o mar que separa as nossas ilhas passa a ser, cada vez mais, o meio que as une.

Luanda, 25 de Setembro de 2026

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