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Da análise política – São Vicente de hoje. Porquê esta crescente decadência?

Por: Rui Pereira

O que se passa com São Vicente? Que aconteceu à ilha que fez do Porto Grande uma janela de Cabo Verde para o mundo, do Mindelo uma referência de urbanidade e modernidade?

Regressei recentemente à ilha com inquietação: São Vicente parece estar a perder parte do seu património e, sobretudo, a capacidade de organizar uma visão mobilizadora do futuro. Há sinais de degradação urbana, fragilização social e perda de referências coletivas positivas, que exigem respostas de governantes, investidores e cidadãos.

A tempestade de agosto de 2025 provocou destruição e sofrimento. Importa reconhecer a tragédia sem a tornar explicação universal dos problemas da ilha. A catástrofe agravou falhas antigas de planeamento e ordenamento. A tempestade destruiu infraestruturas; não criou, por si só, todas as fragilidades que encontrou. Reconstruir o que existia não basta quando parte do que existia já precisava de transformação.

São Vicente exige reflexão suprapartidária. Importa compreender por que razão uma ilha de tanta riqueza histórica, cultural e geoestratégica parece não conseguir convertê-la suficientemente em prosperidade, qualidade de vida e confiança coletiva. Crescimento económico não garante coesão social nem esperança.

Desde o segundo quartel do século XIX, o Porto Grande projetou São Vicente nas rotas marítimas internacionais. O comércio e a circulação de ideias fizeram do Mindelo um encontro entre Cabo Verde e o mundo. Nasceu uma cultura cosmopolita, de abertura e criação, que ultrapassou a ilha. Foi uma maneira de estar no mundo.

Mas o passado glorioso torna-se uma armadilha quando substitui a ambição de construir o futuro. Não basta recordar o Porto Grande, celebrar a morna ou proclamar o Mindelo capital cultural. O património histórico é um ativo, não uma estratégia de desenvolvimento. São Vicente não pode viver da memória da centralidade que teve sem construir as condições daquela que poderá reconquistar.

O que inquieta não é apenas a degradação de certos espaços. É a sensação de que falta um projeto articulado de cidade, ilha e sociedade. Desenvolvimento não se mede só pela asfaltagem de estradas, por edifícios ou investimentos anunciados. Mede-se pela limpeza urbana, segurança, habitação, mobilidade, conservação dos espaços públicos, oportunidades para os jovens e dignidade do quotidiano. Desenvolvida é a cidade que organiza melhor a vida.

São Vicente exige reflexão suprapartidária. Importa compreender por que razão uma ilha de tanta riqueza histórica, cultural e geoestratégica parece não conseguir convertê-la suficientemente em prosperidade, qualidade de vida e confiança coletiva. Crescimento económico não garante coesão social nem esperança.

Há uma questão social que exige investigação: estará São Vicente a caminhar para um empobrecimento silencioso, escondido atrás de uma aparente vitalidade comercial, muito dependente do pequeno retalho chinês, e de uma imagem cultural frequentemente associada ao Carnaval (todas as semanas), ao festival da Baía das Gatas e à animação musical e de bailes non stop? A festa é riqueza, mas não substitui uma economia produtiva na ilha. Importa estudar rendimentos e emprego antes de afirmar tendências. A pobreza também se revela quando as famílias perdem segurança, os jovens deixam de acreditar no futuro e as comunidades enfraquecem a iniciativa.

Mais inquietante é a possibilidade de normalização da anomia social e da indiferença perante o bem comum. O enfraquecimento das regras e do espaço público exige atenção. Não se trata de condenar gerações. Trata-se de perguntar se instituições, escola, família e sociedade conseguem transmitir valores de disciplina, responsabilidade, solidariedade e cidadania.

As transformações familiares também exigem reflexão. A monoparentalidade não constitui, por si, sinal de decadência moral. Mas a ausência de corresponsabilidade parental, o abandono de obrigações, a fragilidade das redes de apoio e a exposição das crianças à pobreza podem comprometer a coesão social. Regenerar a sociedade implica proteger a infância, reforçar a educação e criar condições para que as famílias cumpram a sua missão.

O problema talvez seja mais profundo: São Vicente poderá estar a habituar-se à normalização do marasmo e da estagnação, dificuldades que uma sociedade historicamente criadora, cosmopolita e inconformada deveria recusar como destino. A apatia acumulada pode nascer de promessas adiadas, oportunidades escassas e perda de confiança nas instituições. Mas nenhuma sociedade  se transforma enquanto esperar que todas as soluções venham do Governo ou da Câmara Municipal.

A mudança não pode limitar-se à substituição de governantes, à multiplicação de obras ou à distribuição de recursos. São Vicente precisa de transformar o seu modelo de desenvolvimento e organização social, assente no mérito, no trabalho produtivo, na disciplina institucional, na ética pública, na iniciativa privada e na responsabilidade cívica. Não basta mudar a cidade. É necessário transformar a relação entre a cidade, as instituições e os cidadãos, com decisões concretas, urgentes e socialmente mobilizadoras.

Governo, Câmara Municipal, empresas públicas, universidades, empresários e organizações sociais precisam de ultrapassar a fragmentação das suas agendas. A ilha precisa de estratégia, prioridades e prestação de contas. O Porto Grande deverá voltar ao centro dessa visão, como plataforma de uma economia marítima, logística e tecnológica. Cultura, indústrias criativas e articulação com Santo Antão e São Nicolau podem ampliar oportunidades.

Nenhuma transformação será completa sem política urbana e social. Mindelo precisa de requalificar bairros, proteger a frente marítima, melhorar drenagem e saneamento, cuidar do património e recuperar a dignidade dos espaços públicos. Precisa também de combater a pobreza, apoiar famílias, qualificar jovens e promover cidadania ativa. A reconstrução pós-tempestade deverá corrigir vulnerabilidades antigas, não repor as condições anteriores.

Proponho um pacto de regeneração de São Vicente, com horizonte de quinze a vinte anos, que articule economia, ordenamento,  educação, proteção social, cultura, sustentabilidade e qualidade de vida. Não um documento de gabinete, mas um compromisso com metas e avaliação pública. Por vezes, a distância entre o potencial da ilha e o seu quotidiano deixa uma impressão difícil de aceitar.

Não escrevo sobre São Vicente para diminuir a ilha, mas porque a sua grandeza histórica, cultural e humana não pode servir de consolo  perante os desafios do presente. Amar uma terra também é ter coragem de interrogar o seu destino. São Vicente não está condenada à decadência. Possui talento, património, memória empreendedora e capacidade de reinvenção. Mas não será transformada pela nostalgia ou pela retórica. O desenvolvimento exige visão, instituições competentes e mobilização social.

A tempestade de 2025 foi uma tragédia. Outra, evitável, seria permitir que a reconstrução terminasse sem uma transformação profunda das condições de vida da ilha.

E deixo uma pergunta aos governantes e cidadãos: São Vicente continuará a recordar a grandeza que teve ou terá finalmente a coragem de construir uma nova sociedade à altura da grandeza que ainda pode alcançar?

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