
Por: Estêvão Rodrigues
Independentemente das classificações que possamos atribuir aos diferentes estilos de direcção, importa reflectir sobre o que distingue um chefe de um líder. Embora os dois papéis possam coexistir na mesma pessoa, exercer uma função de chefia não significa, necessariamente, saber liderar.
Aprendemos as primeiras lições sobre autoridade e liderança na família, na escola, nos convívios sociais e na vida profissional. São experiências que nos ensinam a reconhecer a disciplina, o respeito, a solidariedade e a capacidade de influenciar o comportamento dos outros.
As primeiras lições: a família
No meu caso, o meu saudoso pai assumia-se claramente como chefe do lar. Gostava de nos lembrar que «numa capoeira, só pode haver um galo», expressão que traduzia a sua convicção de que deveria existir uma autoridade reconhecida na família.
Contudo, apesar de não prescindir das suas prerrogativas de chefe, liderava também pelo exemplo. Trabalhador honesto, ensinava-nos princípios que ultrapassavam as palavras. Costumava dizer: «Cá em casa não há empregados nem patrões; todos e todas devem fazer alguma coisa, cada um à sua maneira.»
Ensinou-me igualmente que nem todo o dinheiro deve ser embolsado e que a honestidade deve prevalecer sobre a tentação de obter vantagens pessoais. A sua condição de chefe de família nunca o impediu de realizar tarefas domésticas ou trabalhar no campo, de enxada na mão, ao lado da mulher e dos filhos.
A sua autoridade resultava, assim, não apenas do lugar que ocupava, mas também da coerência entre aquilo que exigia e aquilo que fazia. Da minha saudosa mãe, recordo a firmeza, a exigência e o respeito pelas regras. Ambos, à sua maneira, deixaram marcas profundas na minha formação.
A força e a razão na convivência rural
Na minha convivência no meio rural, predominava frequentemente a lei da força sobre a força da razão. O mais forte tendia a impor as regras, enquanto os mais fracos as aceitavam, muitas vezes sem contestação.
Até nos jogos de futebol entre rapazes se reproduziam essas relações de poder. Os jogadores menos robustos nem sempre tinham liberdade para fintar os mais fortes sem enfrentarem a contestação destes. No final, prevalecia a máxima: «Jogo é jogo, amizade à parte.»
Essas experiências ensinaram-me que a força, a posição ocupada ou a capacidade de impor regras podem assegurar obediência, mas não garantem respeito genuíno, justiça ou reconhecimento. Liderar exige mais do que poder para impor: exige saber ouvir, compreender as diferenças e criar condições para que todos participem.
A chefia e a liderança na vida militar
Aos 17 anos, iniciei a minha experiência na vida militar, que terminou aos 22. Conheci uma estrutura hierárquica bem definida, assente na disciplina, no cumprimento das ordens legítimas e no respeito pela cadeia de comando.
Todavia, mesmo num ambiente hierarquizado, há chefes que conquistam maior apreço e reconhecimento dos seus subordinados. São aqueles que cumprem os seus deveres, assumem as responsabilidades das suas decisões e demonstram solidariedade perante as dificuldades dos outros.
Um chefe pode exigir disciplina em virtude da autoridade do seu posto. Um líder consegue que essa disciplina seja acompanhada pela confiança, pelo compromisso e pelo reconhecimento da legitimidade das suas decisões. É na capacidade de conciliar exigência e humanidade que reside uma das diferenças fundamentais entre chefia e liderança.
Um chefe pode exigir disciplina em virtude da autoridade do seu posto. Um líder consegue que essa disciplina seja acompanhada pela confiança, pelo compromisso e pelo reconhecimento da legitimidade das suas decisões. É na capacidade de conciliar exigência e humanidade que reside uma das diferenças fundamentais entre chefia e liderança.
Da independência à experiência profissional
Concluída a experiência militar, iniciei o meu percurso profissional no período que antecedeu e se seguiu à independência de Cabo Verde, proclamada a 5 de Julho de 1975. Era um tempo de grande efervescência revolucionária, marcado pela construção das novas instituições e pela mobilização da sociedade.
Nesse contexto, tive a oportunidade de conhecer diferentes estilos de chefia e liderança. Entre as experiências que mais contribuíram para o meu crescimento, destaco a convivência profissional com Pedro Verona Rodrigues Pires e João Pereira Silva, que desempenharam, respectivamente, as funções de Primeiro-Ministro e de Ministro do Desenvolvimento Rural nos primeiros quinze anos da independência.
Guardo de ambos elevada consideração. Para além das responsabilidades de chefia, eram conselheiros capazes de escutar, orientar e apoiar os mais jovens e menos experientes, entre os quais me encontrava. Não se limitavam a transmitir orientações: procuravam desenvolver capacidades, estimular a iniciativa e criar condições para que outros crescessem profissionalmente.
Na minha avaliação pessoal, ambos merecem a nota máxima como chefes e líderes. A sua influência traduziu-se não apenas na autoridade formal, mas também na confiança que depositavam nas pessoas.
Liderar é criar espaço para os outros
Entre 1975 e 1987, no âmbito da promoção do cooperativismo, participei em iniciativas nas quais a mobilização das comunidades, a organização dos produtores e o trabalho em equipa eram fundamentais.
Nas funções de liderança que exerci, procurei criar condições para que os meus pares tivessem iniciativa, liberdade para apresentar propostas e possibilidade de concordar ou discordar das minhas posições.
Muitas decisões eram alcançadas por consenso, não porque todos fossem obrigados a pensar da mesma maneira, mas porque o debate permitia confrontar ideias e encontrar soluções colectivamente aceites.
Olhando para trás, considero que, nessa experiência, fui mais líder do que chefe. Mais importante do que concentrar em mim o poder de decisão era mobilizar as competências, a experiência e a criatividade dos outros em torno de objectivos comuns.
Esta distinção continua a ser relevante nas cooperativas, nas empresas, na Administração Pública e na actividade política. Uma equipa que apenas executa ordens pode cumprir tarefas; uma equipa que participa nas decisões e assume responsabilidades tem melhores condições para inovar, aprender e produzir resultados sustentáveis.
Chefia e liderança: semelhanças e diferenças
A chefia e a liderança não são conceitos opostos. Uma organização precisa de estruturas, regras e responsabilidades definidas, mas também de pessoas capazes de inspirar confiança, estimular a participação e orientar as equipas para resultados comuns.
A chefia obtém a sua autoridade sobretudo do cargo e da posição hierárquica. A liderança assenta na confiança, na competência, na coerência pessoal e na capacidade de mobilização. Pode ser exercida por quem ocupa um cargo formal, mas também por alguém que conquista a confiança dos outros sem dispor de autoridade hierárquica.
Importa, contudo, evitar simplificações. Nem toda a chefia é autoritária, assim como nem toda a liderança é eficaz. A participação não elimina a necessidade de decidir, e a procura de consenso não deve transformar-se em indecisão. A disciplina e a responsabilização são perfeitamente compatíveis com a escuta, a justiça e o respeito.
O ideal é reunir as duas dimensões: exercer a autoridade com competência e justiça, inspirando e mobilizando a equipa pelo exemplo.
Uma lição da literatura
Em O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, encontramos uma reflexão sobre os vínculos, o cuidado e a responsabilidade perante aqueles com quem estabelecemos relações.
A conhecida máxima «Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas» oferece uma chave de leitura para o exercício da liderança. Liderar não significa apenas distribuir tarefas ou exigir resultados. Significa reconhecer o valor de cada pessoa, criar condições para o seu desenvolvimento e assumir a responsabilidade pelas relações de confiança que construímos.
Esta responsabilidade não exclui decisões difíceis nem a exigência de resultados. A diferença está na forma como exercemos a autoridade: com justiça, transparência, respeito e consciência das consequências das nossas decisões.
Conclusão: a autoridade pode impor, o exemplo pode inspirar
As experiências que vivi na família, no meio rural, na vida militar e na actividade profissional ensinaram-me que a chefia e a liderança podem caminhar juntas, mas não são a mesma coisa.
Do meu saudoso pai guardo a lição da honestidade, do trabalho e da coerência entre palavras e actos. Dos responsáveis com quem trabalhei, retenho a importância de escutar, aconselhar e confiar nas capacidades dos outros. Da experiência cooperativa, levo a convicção de que as melhores soluções surgem frequentemente quando as pessoas participam e assumem conjuntamente as decisões.
Por isso, mais do que perguntar se alguém é chefe ou líder, deveríamos perguntar: que marca deixa nas pessoas com quem trabalha e que capacidades ajuda a desenvolver?
Os cargos são temporários, as hierarquias mudam e as funções terminam. O que permanece é o legado que deixamos, a confiança que conquistamos e a capacidade que ajudámos outros a desenvolver.
A verdadeira medida de quem dirige não está apenas nos resultados que alcança enquanto exerce o poder, mas também nas pessoas que ficam mais capazes, autónomas e preparadas para continuar o trabalho depois da sua partida. É também isso que hoje entendemos por sustentabilidade.

