Cabo Verde passou a contar, a partir de sexta-feira, 17, com o seu primeiro centro de verificação de factos (CV Fact), numa iniciativa que pretende reforçar o combate à desinformação, a manipulação da informação, o mau uso da inteligência artificial e promover uma cultura de maior responsabilidade na partilha de informações. Além da ARC, várias outras entidades estão envolvidas nesta espécie de polígrafo, uma das quais a AJOC.
Apesar de o arranque oficial estar marcado para esta sexta-feira, o coordenador do projecto, Alfredo Pereira, especialista em ciências da comunicação e membro da ARC (Autoridade Reguladora para a Comunicação Social), revelou ao A NAÇÃO que a equipa já se encontra a trabalhar, analisando conteúdos e preparando as primeiras publicações.
“Podemos até dizer que já estamos em efectividade de funções. Eventualmente poderá haver um dia oficial de abertura, mas a equipa já está a trabalhar”, afirma, sublinhando que os últimos dias têm sido dedicados à formação, de modo a preparar a equipa para uma tarefa que considera complexa.
“É uma tarefa que implica, obviamente, bastante rigor. Nesse sentido, temos vindo a preparar a equipa desde a formação, para podermos dar início ao trabalho oficial, se assim posso dizer, a partir desta sexta-feira”, acrescentou.
Um caminho percorrido desde 2024
De acordo com a mesma fonte, o projecto CV-Fact nasceu em 2024, na sequência de um encontro com a equipa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Posteriormente, a ARC manifestou disponibilidade para acolher um centro de verificação de factos em Cabo Verde.
Essa disponibilidade foi, segundo explicou, reforçada pelo apoio da Comissão Nacional de Eleições (CNE), que, durante as eleições autárquicas de 2024, permitiu a criação de um centro piloto de verificação de factos.
“Através da CNE criou-se um centro piloto de verificação de factos. Este foi o pontapé de saída desta empreitada”, referiu, acrescentando que, graças ao sucesso da experiência piloto, em março de 2025 receberam consultores do PNUD para avaliar a necessidade de implementação de um centro permanente no país.
Segundo o mesmo, desse processo resultaram recomendações técnicas e estratégicas que ajudaram a estruturar o centro CV-Fact. A iniciativa assenta numa parceria entre a ARC, a Uni- -CV e a AJOC, com o apoio do sistema das Nações Unidas, através da sua agência PNUD.
“A ARC será a responsável pela coordenação, a Uni-CV vai albergar fisicamente o centro de verificação de factos, a AJOC vai fornecer os editores, já o PNUD é o nosso parceiro financeiro”, explicou Alfredo Pereira.
Estudantes assumem o papel de fact-checkers
Um dos elementos distintivos do projecto é o envolvimento de estudantes universitários do curso de ciências de comunicação e áreas afins da Uni-CV, que serão os próprios fact checkers. Para muitos, este será o primeiro contacto directo com o trabalho de fact-checking.
Ângela Correia, estudante do terceiro ano, afirmou que, apesar de ser a sua primeira experiência como fact-checker, sente-se preparada para combater a desinformação, graças à formação recebida.
Já Rosiene Varela, também estudante do terceiro ano, que participou no programa piloto, considera que, apesar de serem estudantes, possuem experiência suficiente para integrar a equipa.
Ainda assim, ambas reconhecem que não será um trabalho fácil, sobretudo devido à necessidade de contactar fontes, que nem sempre estarão disponíveis para fornecer as informações necessárias ao processo de verificação.
Participação activa da sociedade
Por se tratar de uma tarefa exigente, o coordenador do projecto espera contar com o envolvimento da sociedade. “O trabalho deve ser partilhado por toda a sociedade. Vamos também actuar nesse sentido, incentivando as pessoas a desenvolverem a capacidade de verificar a informação antes de a partilhar”, afirmou.
Apesar de o centro ser inaugurado num período eleitoral, Alfredo Pereira defende que o foco do CV-Fact não será exclusivamente a política, mas sim todas as áreas da sociedade, como saúde, economia e cultura, entre outras que necessitam de verificação de factos.
“O nosso objectivo não é apenas a política. No entanto, abrimos num período eleitoral e, naturalmente, as questões relacionadas com as eleições não podem ser ignoradas”, assegura.
Pereira reitera ainda que o CV-Fact terá uma presença ativa em todas as áreas, mas dará atenção especial ao contexto atual, estando disponível para ajudar a população a identificar o que é verdadeiro.
O centro CV-Fact, foi inaugurado oficialmente sexta-feira, 17, e contará com uma equipa de nove elementos, sendo seis fact-checkers , na maioria estudantes, dois editores da AJOC e um coordenador da ARC.
O que é CV-fact e fact-checking ?

O CV-Fact é um centro de verificação de factos independente e transparente, com o objectivo de combater a desinformação, promover a integridade da informação e contribuir para o fortalecimento da democracia e a cidadania ativa em Cabo Verde.
O fact-checking ou a verificação de factos é um processo sistemático de identificação, análise e validação de informações com o objetivo de determinar se são verdadeiras, falsas, manipuladas, descontextualizadas e/ou nocivas.
A missão é promover uma cidadania informada e uma cultura de transparência, através da identificação, análise e verificação da desinformação que circula nos meios de comunicação e redes sociais em Cabo Verde.
Cleidiane Tavares
*estagiária

