O filme-documentário Cape-Verdean Cranberrie: The Fernandes Family Story conta a história da família Fernandes, há várias gerações instalada na América, através de Teresa e Domingos, produtores de cranberries na plantação Fresh Meadows, em Carver, Massachussets. Esta semana o documentário é apresentado na 9ª edição Rhode Island Black Film Festival, que decorre entre 15 e 19 de Abril. A produção é do Cape Verdean Museum. Uma saga que levou muitos cabo-verdianos para os campos da ilha de Nantucket e do sul de Massachussets, logo após o início do declínio da pesca da baleia.
Mesmo com o fim da pesca à baleia, no final do século XIX, mais cabo-verdianos continuam a chegar aos Estados Unidos da América (EUA) e muitos encontram trabalho na costa sul de Massachussets. Com o tempo, esta ligação entre a história dos imigrantes cabo-verdianos na América e a indústria do cranberry no século XX irá tornar- -se efectiva. E no filme, a história da plantação Fresh Meadows, da família Fernandes, é contada pela filha mais nova, Teresa e o irmão, Domingo, mais conhecido por Dom, que está no negócio há 44 anos.
Nenhum dos irmãos chegou a conhecer os avós, que emigraram de Cabo Verde para a América. Mas a mãe nasceu ainda em Cabo Verde e foi para a América numa escuna, numa viagem de 32 dias da travessia do Atlântico, quando tinha apenas um ano de idade. Os avós deixaram o Fogo em 1929, numa época em que a emigração para os EUA já havia mudado e só os que tinham parentes aqui podiam desembarcar no país, num bote que os trazia do barco para o porto.
Recentemente, a família decidiu lançar a sua marca própria de ‘fresh fruit’ cranberry, tudo orgânico. Os irmãos nasceram numa significativa comunidade cabo-verdiana, na cidade de Carver, em que todos se conheciam e se ajudavam mutuamente. Grande parte da pequena cidade era habitada por cabo-verdianos, a ponto de algumas ruas terem sido baptizadas com nomes de cabo-verdianos, pelo número de habitantes que ali havia. Alguns destes emigrantes estavam no sector da construção de ‘bogs’, terrenos para o cultivo de cranberries e alguns começaram a comprar esses mesmos terrenos.
Avô passou de trabalhador a proprietário
Foi o caso do avô de Domingo e Teresa, que em 1958 comprou um dos terrenos. Outros cultivavam legumes nesses terrenos que conseguiam comprar, onde criavam também animais. O pai de ambos acabou por se tornar numa das figuras mais respeitadas de Carver, integrando a comissão de finanças local, muito bem integrados na sua comunidade. E a mãe, que haveria de viver até aos 97 anos, quando não estava a apanhar cranberries, tarefa sazonal (Outono), estava metida noutros negócios, inclusive numa formação para ser enfermeira, fora na época dos cranberries.
Para Teresa, a mãe era uma espécie de ‘walking-talking history book’ (um livro de história que fala e caminha) que no auge da força, chegou a encher 100 caixas num só dia. E com oitenta anos, ainda dirigia uma das máquinas de colher cranberries. Da história deste trabalho, que empregou milhares de cabo-verdianos acabados de chegar à América e outros que aqui encontraram, ficam os ensinamentos e as lições de respeito, honestidade e dignidade, de trabalhar duramente mas no final poder gozar o proveito desse trabalho, explicam os irmãos no filme.
Quando o pai ficou doente, Domingo tinha pouco mais de 20 anos e toda a família pensou em vender a plantação. Depois da morte do pai, resolveu pegar no negócio e levá-lo para a frente. Havia muitas dúvidas sobre a sua viabilidade. A dinâmica dessa indústria estava a mudar e os momentos mais altos haviam sido durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos de 1980, quatro anos antes de dar os primeiros passos no negócio. Os primeiros cabo-verdianos trabalhavam nos ‘bogs’ ainda sem máquinas, recolhendo o fruto à mão (mais tarde com a ajuda de um instrumento de madeira chamado ‘snapper’), avançando de joelhos pelo terreno, e por um salário de miséria, 10 cêntimos, 15 cêntimos por caixa.
Joaquim Arena
Leia a matéria na integra na Edição 972 do Jornal A Nação, de 16 de Abril de 2026

