
Por: António Delgado Medina*
Em Cabo Verde, fala-se frequentemente de desenvolvimento, crescimento económico e modernização. Contudo, a realidade demonstra que esse desenvolvimento continua profundamente desigual entre as ilhas, os municípios e os espaços urbanos e rurais. Enquanto algumas zonas concentram investimentos, infraestruturas e oportunidades, outras continuam marcadas pelo isolamento, pela escassez de emprego e pelo abandono progressivo da população. É precisamente neste contexto que a descentralização e o desenvolvimento rural assumem importância estratégica para o futuro do país.
A ilha de Santo Antão constitui talvez um dos exemplos mais evidentes dessas assimetrias territoriais. Durante décadas, milhares de santantonenses foram obrigados a abandonar as suas localidades e, muitas vezes, a própria ilha, em busca de melhores condições de vida em São Vicente, Praia, Sal, Boa Vista ou no estrangeiro.
O êxodo rural tornou-se uma realidade persistente, alimentada pela falta de oportunidades económicas, pela fragilidade das infraestruturas e pela reduzida capacidade de geração de emprego local.
Quando se observa o despovoamento progressivo de muitas localidades do interior de Santo Antão, percebe-se que o problema não resulta da falta de potencial da ilha, mas sim da ausência de políticas suficientemente estruturadas e territorialmente equilibradas. Santo Antão possui recursos agrícolas, paisagens únicas, património cultural, potencial turístico e uma população trabalhadora e resiliente. O que falta é transformar esse potencial em oportunidades concretas de desenvolvimento.
É neste ponto que a descentralização deixa de ser apenas um discurso político e passa a constituir uma verdadeira necessidade nacional.
Descentralizar significa aproximar os recursos, os investimentos e as decisões das populações locais. Significa permitir que os municípios e as comunidades tenham maior capacidade de intervenção sobre os seus próprios desafios e prioridades. Um país pequeno como Cabo Verde não pode continuar excessivamente centralizado sem aprofundar ainda mais as desigualdades territoriais.
Descentralizar significa aproximar os recursos, os investimentos e as decisões das populações locais. Significa permitir que os municípios e as comunidades tenham maior capacidade de intervenção sobre os seus próprios desafios e prioridades. Um país pequeno como Cabo Verde não pode continuar excessivamente centralizado sem aprofundar ainda mais as desigualdades territoriais. (…) As comunidades conhecem os seus problemas, mas também conhecem as suas potencialidades. O envolvimento local é indispensável para garantir políticas públicas mais eficazes e sustentáveis.
Investir no desenvolvimento rural não significa apenas construir estradas ou infraestruturas básicas, embora isso seja importante. Significa criar condições para que as pessoas possam viver com dignidade nas suas comunidades. Significa apoiar a agricultura moderna e sustentável, incentivar a agroindústria, promover o turismo rural, fortalecer o empreendedorismo local e criar mecanismos de financiamento adaptados às realidades das zonas periféricas.
Em Santo Antão, por exemplo, a agricultura continua a enfrentar enormes dificuldades de escoamento da produção para as ilhas turísticas, como Sal e Boa Vista, que paradoxalmente continuam a importar muitos produtos do exterior. A fraca conectividade marítima e determinadas restrições sanitárias e comerciais acabam por penalizar os produtores nacionais e limitar o aproveitamento económico da produção local. Esta realidade demonstra como as políticas públicas continuam, muitas vezes, desconectadas das necessidades concretas dos territórios rurais.
Outro aspeto essencial é o apoio ao empreendedorismo jovem. Muitos jovens abandonam as suas localidades não por falta de vontade de permanecer, mas porque não encontram condições mínimas para construir um projeto de vida. Sem emprego, sem financiamento, sem acesso à inovação e sem perspetivas de mobilidade social, a migração transforma-se quase numa inevitabilidade. Criar oportunidades económicas locais é, portanto, uma das formas mais eficazes de regular os fluxos migratórios internos.
Mas o desenvolvimento territorial não pode ser imposto apenas a partir do centro político. Ele deve ser construído com participação ativa das populações locais, das autarquias, das associações comunitárias, das universidades e do setor privado. As comunidades conhecem os seus problemas, mas também conhecem as suas potencialidades. O envolvimento local é indispensável para garantir políticas públicas mais eficazes e sustentáveis.
Cabo Verde precisa urgentemente de uma nova visão de desenvolvimento territorial. Uma visão que compreenda que o combate às desigualdades regionais não é apenas uma questão social, mas também económica, demográfica e estratégica. Se continuarmos a concentrar oportunidades apenas em alguns polos urbanos, o país arrisca-se a aprofundar o despovoamento das zonas rurais, aumentar a pressão sobre as cidades e fragilizar ainda mais a coesão nacional.
Desenvolver Santo Antão, Santiago Norte, Fogo profundo ou outras regiões periféricas não deve ser visto como um custo, mas sim como um investimento no equilíbrio territorial, na estabilidade social e no futuro de Cabo Verde. Porque um país verdadeiramente desenvolvido não é aquele onde apenas algumas ilhas crescem, mas aquele onde todos os territórios têm oportunidades reais de progresso e dignidade.
27 de maio de 2026
*Geógrafo. Doutorando em Ciências Sociais

