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A verdade depois das urnas

Por: João Vieira Baptista*

Os resultados destas eleições nos Estados Unidos deixam uma reflexão profunda, dura e inquietante para todos aqueles que ainda acreditam que a política deve ser um confronto sério de ideias, de visão estratégica e de propostas concretas para o futuro da nossa diáspora e de Cabo Verde.

O que vimos não foi apenas uma disputa eleitoral. O que assistimos foi à vitória do populismo emocional sobre a racionalidade, da propaganda sobre o conteúdo, do ruído sobre a substância, do slogan fácil sobre a profundidade das ideias. Imperou o discurso vazio, a promessa impossível, o marketing político sem consistência e a exploração calculada do descontentamento social.

Assumo, enquanto cabeça de lista, a minha responsabilidade política por estes resultados nos EUA. Quem lidera não foge às responsabilidades nem se esconde atrás das circunstâncias. A democracia exige coragem para reconhecer resultados, mesmo quando eles nos ferem profundamente. E eu faço-o de cabeça erguida, com serenidade, dignidade e consciência tranquila.

Mas seria igualmente uma cobardia política fingir que todos os actores entram neste jogo em igualdade de condições. Não entram. Nunca entraram.

Há muito tempo que existe um sistema cuidadosamente montado, alimentado e protegido para favorecer o PAICV em determinados círculos eleitorais da diáspora. Um sistema silencioso, sofisticado e profundamente enraizado, onde operações cirúrgicas de engenharia eleitoral são executadas com precisão quase matemática.

O que vimos não foi apenas uma disputa eleitoral. O que assistimos foi à vitória do populismo emocional sobre a racionalidade, da propaganda sobre o conteúdo, do ruído sobre a substância, do slogan fácil sobre a profundidade das ideias. Imperou o discurso vazio, a promessa impossível, o marketing político sem consistência e a exploração calculada do descontentamento social.

A transferência estratégica de eleitores para regiões diferentes daquelas onde historicamente votavam não aconteceu por acaso. Foi método. Foi cálculo político. Foi estratégia. E infelizmente funcionou.

O mais impressionante em todo este processo é que o PAICV conseguiu alcançar este resultado apresentando talvez a lista mais fraca, menos preparada e menos consistente com que já concorreu nos Estados Unidos. 

Um candidato praticamente desconhecido da comunidade emigrada, sem implantação real, sem percurso consistente junto da diáspora, sem visão estratégica para os emigrantes e, sobretudo, sem qualquer projecto concreto, credível e estruturado para Cabo Verde.

Não houve debate sério de ideias. Não houve profundidade programática. Não houve visão estruturada para o futuro da diáspora. Houve apenas uma campanha sustentada no desgaste emocional, no populismo, na exploração da frustração colectiva e numa máquina política profundamente oleada para produzir resultados eleitorais a qualquer custo.

E é precisamente aqui que surge um dos fenómenos mais preocupantes destas eleições: o controlo quase absoluto das mesas de voto. Importa recordar que os nomes dos membros das mesas foram posteriormente solicitados pela CNE precisamente para suprir deficiências existentes no processo. Contudo, muitas actas já haviam sido concebidas antecipadamente antes da actualização final dos nomes apresentados pelas candidaturas.

*PhD in Business Economics, MsC in Computer Engineering/ Biostatistics and Biometry, MBA

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