A escassez de água em vários bairros da cidade da Praia continua a gerar indignação entre os moradores, que denunciam semanas sem abastecimento regular e apelam a uma solução definitiva por parte da Águas de Santiago (AdS). Moradores de Ponta de Água mostram-se revoltados com a situação, numa época do ano em que, com a subida das temperaturas, a falta do precioso líquido tornou-se uma preocupação cada vez mais urgente para muitas famílias.
Uma reportagem da Televisão de Cabo Verde (TCV) mostrou moradores a deslocarem-se com recipientes para buscar água, uma realidade que, segundo os entrevistados, se tornou frequente em vários bairros da capital.
Em Ponta de Água, os residentes queixam-se de interrupções prolongadas no abastecimento e de problemas que se arrastam há meses.
Semanas sem abastecimento
Ney, morador de Ponta de Água, afirma que a situação agravou-se desde Abril último.
“Desde o mês de Abril não tivemos água nas torneiras. Temos estado a comprar água nos camiões-cisterna, mas ultimamente deixaram de vender por bidões. Um bidão custava entre 200 e 300 escudos, mas dizem que já não compensa devido ao aumento do preço dos combustíveis.”
Também Carminda, outra moradora, considera que a situação é insustentável.
“Todos os meses pago a fatura de água e luz, mas onde está a água? Já falámos com a AdS e continuamos sem solução”, afirma, lamentando que depende da ajuda de familiares para garantir o abastecimento.
“Uma tonelada de água dura cerca de sete dias. De semana a semana, peço ao meu tio, que vive no bairro de Safende, para abastecer o meu tanque. Há mais de um mês que não vemos sinal de água.”
Já Daniela conta que chegou a pedir ajuda aos bombeiros, que, entretanto, não tinham água. Foi um vizinho que ofereceu-lhe duas garrafas de água de 25 litros, para “desenrascar” uma vez que são seis pessoas em casa.
Segundo Jardel, algumas zonas conseguem ter água “de vez em quando”, mas onde ele mora está sem abastecimento há cerca de três meses.
Queixas estendem-se a outros bairros
Os moradores garantem que o problema não se limita a Ponta d’Água. Sulita afirma que a situação também afeta outras zonas da cidade.
“Às vezes ficamos quatro ou cinco semanas sem água. Ontem fui visitar a minha mãe em Achada Grande Frente e também não havia um pingo de água.”
Fátima também disse que em Achada São Filipe encontrou pessoas a transportarem recipientes para recolher água, reforçando a perceção de que a escassez afeta vários bairros da capital.
Aumento procura pelos camiões-cisterna
A crescente procura levou muitos moradores a recorrerem aos camiões-cisterna. No entanto, os prestadores deste serviço afirmam que não conseguem responder a todos os pedidos.
Jorge, proprietário de um camião-cisterna, explica que a venda por bidões deixou de ser viável.
“Não é um bom negócio. Vender por bidões desorganiza o nosso trabalho e implica custos elevados de combustível. Só o funcionamento da bomba já representa um gasto superior ao valor de um bidão de água”, afirmou este empresário, que também confirmou dificuldades em responder à elevada procura.
Solidariedade para além do negócio
Apesar das exigências da atividade, recentemente, Jorge colaborou no combate ao incêndio de grandes proporções que deflagrou em Ponta Belém, no Plateau, disponibilizando água para apoiar as operações.
Um gesto que, segundo o próprio, demonstra que, para além da vertente empresarial, existe também uma preocupação genuína em contribuir para o bem-estar da população.
Enquanto aguardam uma solução das entidades responsáveis, os moradores insistem que a falta de água já ultrapassou o limite do aceitável e exigem medidas urgentes para normalizar o abastecimento na cidade da Praia.
C/RTC

