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Política em Cabo Verde: entre a arrogância e a degradação da vida pública

Por: João Serra*

A política, na sua aceção mais elevada, é uma das atividades mais nobres que uma sociedade pode produzir. Aristóteles via nela a expressão máxima da vida em comunidade. Max Weber distinguia quem vive da política de quem vive para a política, reservando a segunda categoria para quem age movido por convicção e responsabilidade. Norberto Bobbio insistia em que a democracia exige respeito pelo adversário, contenção na linguagem e fidelidade à verdade dos factos. É essa tradição que dignifica a política, e é o seu abandono que a degrada.

Cabo Verde conheceu, nos últimos 25 anos, dois grandes ciclos de governação alternada entre o PAICV e o MpD. Nenhum dos dois partidos é isento de crítica. 

O PAICV governou durante quinze anos sem que a cultura de prestação de contas fosse uma prioridade absoluta, e a tendência para a concentração de influência nos aparelhos do Estado não lhe é estranha. Mas há uma diferença de grau que importa reconhecer. 

Ao longo da sua última década no poder, o MpD consolidou um estilo discursivo mais agressivo, mais personalista e menos tolerante à dissidência, fenómeno amplificado pelo advento e pela massificação das redes sociais em Cabo Verde.

Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger descreveram o chamado efeito Dunning-Kruger. Trata-se de um viés cognitivo segundo o qual indivíduos com reduzida competência numa determinada área tendem a sobrestimar os seus conhecimentos e capacidades. Não apenas ignoram o que não sabem, como são incapazes de reconhecer a extensão da sua própria ignorância. Daí resulta uma confiança desproporcionada, frequentemente acompanhada pela desvalorização das opiniões de quem efetivamente domina os assuntos em causa. Quando este fenómeno se instala no exercício de funções públicas, os riscos multiplicam-se, pois decisões complexas passam a ser tomadas com excesso de confiança e insuficiência de conhecimento.

É neste enquadramento que importa analisar o tom discursivo do Governo anterior, particularmente o do ex-ministro das Finanças, Olavo Correia. Não se trata de episódios ocasionais ou de meros excessos de linguagem, mas de um padrão recorrente de comunicação assente em hipérboles, simplificações e promessas de impacto imediato, revelador de uma forma de otimismo político que, não raras vezes, dispensa o confronto com a evidência empírica.

A afirmação de que “Cabo Verde tem dinheiro que nunca mais acaba” tornou-se emblemática desse estilo. Não apenas pelo exagero, mas pelo que revela: uma tendência para substituir a escassez – condição estrutural de qualquer economia – por uma narrativa de abundância permanente. Essa retórica não é neutra. Ao sugerir que os recursos são virtualmente ilimitados, dilui a perceção de custo, desvaloriza a necessidade de escolha e enfraquece a disciplina na gestão pública.

Esse registo de grandiloquência estende-se ao modo como o futuro do país era apresentado. Cabo Verde surgia, no discurso desse ex-governante, como estando numa trajetória quase linear de ascensão, onde os constrangimentos estruturais se dissipam e onde o país se aproxima, num horizonte sempre iminente, de um estatuto de desenvolvimento pleno. A narrativa sugere não apenas progresso, mas uma aceleração quase inevitável rumo a um patamar de prosperidade generalizada.

A arrogância atravessou toda a governação do MpD, assente nessa ilusão de infalibilidade: bastava proclamar sucesso para substituir a complexidade pela propaganda. Mas a realidade é indiferente ao voluntarismo político – e os eleitores acabaram por recordá-lo nas urnas.

É precisamente aqui que o efeito Dunning-Kruger oferece uma chave interpretativa útil. Quando a confiança discursiva não é acompanhada por profundidade analítica, o decisor tende a subestimar a complexidade dos fenómenos e a sobrestimar a sua capacidade de controlo. O resultado é uma comunicação política que privilegia a certeza aparente em detrimento da precisão.

Este padrão tem consequências. Ao alimentar narrativas de abundância (“dinheiro que nunca mais acaba”) e narrativas de sucesso (erradicação de pobreza extrema, pleno emprego), Olavo Correia contribuiu para criar uma perceção excessivamente otimista da realidade do país. Quando esta acabou por impor os seus limites, deteriorou-se também a confiança dos cidadãos.

A arrogância atravessou toda a governação do MpD, assente nessa ilusão de infalibilidade: bastava proclamar sucesso para substituir a complexidade pela propaganda. Mas a realidade é indiferente ao voluntarismo político – e os eleitores acabaram por recordá-lo nas urnas.

Esse padrão discursivo tem um correlato mais direto e mais corrosivo: a linguagem do insulto. Não é um fenómeno exclusivo do MpD, mas foi sob a sua governação que atingiu expressão mais sistemática – nas redes sociais, onde militantes e dirigentes transformaram o insulto em arma política, e no hemiciclo, onde a linha entre debate e grosseria desapareceu.

Recentemente publiquei um artigo de opinião cuja tese central era a de que, para o cálculo do serviço da dívida pública, devem ser considerados tanto os juros como as amortizações do capital vencido que o Estado tem de liquidar num determinado período. Trata-se de uma afirmação inatacável do ponto de vista da teoria macroeconómica.

Em reação ao texto, surgiu no Facebook uma publicação inteiramente alheia à perspetiva analítica que sustenta o conceito de serviço da dívida utilizado no meu artigo. Seguiu-se então o ritual habitual: dirigentes, militantes e simpatizantes mais fervorosos do MpD aproveitaram a ocasião para substituir a discussão dos factos pelo ataque pessoal.

Entre os que reagiram contavam-se o então ministro da Promoção do Investimento e Fomento Empresarial, Eurico Monteiro, e Óscar Santos, os quais puseram em causa uma afirmação que corresponde ao bê-á-bá da economia. Se, no caso de Eurico Monteiro, o desconhecimento de matérias económicas pode ser considerado compreensível, por ser jurista, já no caso de Óscar Santos a situação é particularmente grave, tendo em conta as funções que atualmente exerce como Governador do Banco de Cabo Verde.

Mas foi a reação do então líder parlamentar do MpD, Celso Ribeiro, que mais chamou a atenção. Em vez de responder aos argumentos económicos apresentados com argumentos da mesma natureza, como seria de esperar de alguém que se apresenta como economista, este conhecido caceteiro político optou pelo caminho mais fácil: o do insulto. Classificou-me como um técnico “serviçal” subordinado à política e brindou-me com outros epítetos da mesma natureza. 

Isso ilustra o padrão de comportamento do sistema MpD na última década: perante o argumento que não se rebate, recorre-se ao rótulo que anula o interlocutor. É uma intimidação que diz menos sobre quem é visado e mais sobre quem a pratica. Numa democracia consolidada, o insulto não é um estilo, é um sintoma.

Termino com a esperança, porventura utópica, de que a política volte a ser exercida com a seriedade, o respeito e o sentido de responsabilidade que Bobbio e Weber associavam à sua forma mais nobre.

Praia, 27 de junho de 2026

*Doutorado em Economia

Blog: https://economianaserra.blogspot.com

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