
Por: Jorge Eurico*
O general romano Júlio César chegou, viu e venceu na Batalha de Zela. “Veni, vidi, vici.” O Primeiro-Ministro de Cabo Verde, Francisco Carvalho, iniciou o seu ciclo político com um confronto público com a imprensa. Sinal de um arranque marcado por tensão na relação entre poder e escrutínio jornalístico. O primeiro episódio político de relevo do Primeiro-Ministro envolve o confronto público e truculento com o jornalista António (Tony) Teixeira, antigo chefe de redacção da RTCV. Um episódio digno de registo e de reflexão política.
Francisco Carvalho reagiu a um conteúdo jornalístico. A reacção assemelha-se à de um pescador irritado com o resultado da sua pescaria. Em causa estavam declarações suas sobre o PAICV e as eleições presidenciais.
O pivot informava que o PAICV já pensava nas presidenciais. E que Francisco Carvalho não esclarecia se o partido apoiaria uma eventual recandidatura de José Maria Neves. A legenda era directa: «PAICV não confirma, por agora, apoio a José Maria Neves». Perante a pergunta, o líder do PAICV não confirmou nem desmentiu. Remeteu a posição para momento oportuno.
Não gostou da leitura. Reagiu. E criticou publicamente o jornalista. «Quem não gosta, come menos», assim reza um anexim português. O Primeiro-Ministro conhece-o. Sabe o que significa no debate público. A resposta foi além da discordância. Foi fulanizada. Desvalorizou o percurso profissional de António (Tony) Teixeira. Comparou-o aos jornalistas portugueses José Rodrigues dos Santos e Rodrigo Guedes de Carvalho. Disse que, ao fim de quarenta anos de carreira, produzia uma reportagem que, no seu entendimento, «mentia e deturpava» os factos. Colocou ainda em causa a sua evolução técnica, profissional, ética e moral.
O episódio revela um traço do seu estilo político. Francisco Carvalho revela um perfil de “democrata de faca na boca”. Comporta-se como quem tem «pêlo nas ventas». Reage. Responde. Não leva desaforos para casa. É legítimo na luta partidária. Mas governar é diferente. Exige contenção e sentido de Estado. Entre crítica jornalística e combate político existe uma linha que não deve ser ultrapassada.
O chefe do Governo confrontou um jornalista em espaço público. E, por arrasto, a classe jornalística cabo-verdiana.
É um sinal que merece debate. Desvalorizou um jornalista cabo-verdiano e valorizou profissionais estrangeiros. O gesto teve leitura política e levanta uma questão de confiança na comunicação social nacional. Um Primeiro-Ministro representa o Estado. Sempre. Mesmo quando confronta jornalistas.
Quando um chefe de Governo privilegia o exterior em detrimento do interior, a percepção torna-se política. O patriotismo fica em casa.
Os cabo-verdianos confiaram-lhe a condução do país. Esperam sentido de Estado, equilíbrio institucional e respeito pela imprensa. Não é exigida concordância com os jornalistas, mas respeito pelo seu papel. Cabo Verde está na idade da razão democrática. A 5 de Julho celebra a independência. É um Estado soberano e uma referência africana. Por isso, a relação entre poder e imprensa exige vigilância permanente.
Se, por dever de ofício, um jornalista estrangeiro e ingénuo perguntasse a Francisco Carvalho se existe Liberdade de Imprensa em Cabo Verde, a resposta poderia surgir com um sorriso contido e prudência calculada, amparada na paráfrase associada a Idi Amin Dada: « “Existe liberdade de expressão, mas não posso garantir liberdade após a expressão.» Dito de outro modo: a liberdade para falar existe. O depois da fala é o ponto sensível. É aí que nenhuma democracia deve vacilar.
O caminho da Liberdade de Imprensa em Cabo Verde foi longo e exigente. É uma conquista democrática. Não está garantida para sempre. Exige vigilância diária. Numa democracia madura, quando o poder fala mais alto, o jornalismo não se cala. Responde. Com independência, firmeza e responsabilidade. Essa é a sua missão.
*Jornalista angolano radicado no Canadá

