PUB

Colunistas

Os grandes Tubarões de Cabo Verde

Por: Germano Almeida

Nos primeiros tempos da independência nacional, quando os camaradas regressavam ao país vindas de missões no exterior e se queixavam ao então primeiro-ministro Pedro Pires de que as pessoas nunca falavam de Cabo Verde, parecia que só conheciam a Guiné, “não parece saberem alguma coisa de nós”, ele tentava consolá-los dizendo, é natural que seja assim, a Guiné teve uma guerra de alguns anos, deu tempo para as pessoas saberem dela, nós não tivemos nada disso e então não se falava de nós. Porém, se trabalharmos bem, com dedicação no sentido do progresso da nossa gente, do nosso povo, o povo de Cabo Verde, eles acabarão por ouvir falar de nós e falarão de nós com respeito e admiração.

Lembrei-me desta entrevista que estou a citar de cor, concedida pelo comandante Pedro Pires ao jornalista José Vicente Lopes numa altura próxima da abertura ao pluripartidarismo.

 Desse tempo da independência ao presente, tivemos muitas razões e muitos motivos de nos orgulharmos do nosso país cujo crescimento e desenvolvimento vimos acompanhando diariamente, felizes e alegres e orgulhosos e aplaudindo as coisas boas que vão acontecendo, mas também zangados e reivindicando o direito cidadão de criticar, até em voz alta, e escrever, as asneiras e erros que infelizmente também vão acontecendo. Porém, reconhecendo sem esforço que da independência  até aos dias de hoje o salto é vastamente positivo e a independência continua a valer a pena como o dia mais importante das nossas vidas.

 Temos vivido dias memoráveis e que têm merecido respeito e admiração generalizada. Sem ir mais longe, podemos começar pela abertura política que desembocou no 13 de janeiro de 1991. 

Depois de 15 anos no poder, o partido que o vem exercendo perde-o em eleições e entrega-o à oposição vencedora com a rapidez de quem estivesse já farto e desejoso de se ver livre dele. 

E desde essa data tem sido assim ao longo dos anos de pluripartidarismo e foi quase chocante ver há dias o desprendimento com que o primeiro-ministro cessante se predispôs a entregar o lugar ao novo vencedor. Temos tido, pois, razões de contentamento na maneira como os nossos governantes se têm comportado nesse particular. 

Os Tubarões têm sido importantes no erguer alto o orgulho de Cabo Verde. Primeiro em reconhecido e louvado conjunto musical de boa memória que bem cantou a independência nacional com melodias que ainda hoje perduram no nosso imaginário de forma indelével. (…) Se os nossos primeiros Tubarões cantaram a história, os Tubarões Azuis fizeram história. E fizeram história como nunca ninguém terá imaginado que poderiam fazer.

Porém, neste momento, estamos ainda ébrios é dos gloriosos feitos dos Tubarões Azuis na Copa do Mundo. Li alguém que escreveu que ORGULHO é palavra pequena para descrever e traduzir o que sentem os filhos das ilhas diante da gloriosa campanha desses valentes sobre os quais bem podemos plagiar Camões: Bendita pátria que tais filhos tem!

  A presença ainda que virtual e o apoio indiscutível do nosso povo aos Tubarões Azuis no Mundial de 2026 poderia ser comparável ao momento da independência nacional, se na independência tivesse estado empenhada a totalidade dos cabo-verdianos. Mas na Copa não houve divisão, estivemos todos do mesmo lado, não só nós cabo-verdianos mas também grande parte do mundo inteiro, muitos que pela primeira vez ouviam falar de Cabo Verde.

 Os Tubarões têm sido importantes no erguer alto o orgulho de Cabo Verde. Primeiro em reconhecido e louvado conjunto musical de boa memória que bem cantou a independência nacional com melodias que ainda hoje perduram no nosso imaginário de forma indelével. Impossível referir sequer alguns. Talvez a morna de Manuel d’Novas que ficou com o nome imorredouro de “5 de julho” porque ela é de facto um fraterno abraço para todos os irmãos que sonharam e ansiaram por esse dia. 

Porém, se os nossos primeiros Tubarões cantaram a história, os Tubarões Azuis fizeram história. E fizeram história como nunca ninguém terá imaginado que poderiam fazer, afora um povo inteiro espalhado pelas sete partidas do mundo e que durante dias se vestiu das cores da pátria e em cada partida de futebol berrou perdidamente frente aos televisores.

  Mas não só nós! Grande parte do mundo inteiro vibrou connosco, abismados e encantados com o atrevimento de um povo de pouco mais de um milhão de pessoas que destemidamente desafiava os grandes do mundo do futebol. Recebi um mail de uma conhecida de Brasília de quem não sabia nada há mais de 20 anos: ”Perdi a voz gritando por seu país. O Vozinha é o herói de 215 milhões de brasileiros também”, escreveu ela.

 Quando penso na grandeza do feito da seleção de futebol de Cabo Verde, o que me vem à mente são as palavras com que a Passionaria se despediu das Brigadas Internacionais que combateram ao lado da Espanha Republicana: “Vieram de diferentes partes do mundo, combateram com um heroísmo que ficará para sempre gravado na memória do nosso povo. Podeis estar orgulhosos porque sois a História, sois a Lenda”.

 E certamente que quando forem já homens velhos, vivendo na recordação dos dias de antigamente, os nossos heróis da seleção de hoje poderão contar aos seus netos e bisnetos que tiveram a honra de lutar, com glória imorredoura, nos quatro combates em que batalhou a esquadra de Cabo Verde no que foi a grande campanha chamada Copa do Mundo 2026.   

 Também concordo que haja o dia dos Tubarões Azuis. Mas não o dia inicial. Prefiro sim o dia em que vimos a poderosa Argentina esfalfada e já alquebrada, sobretudo pasmada e também muito transpirada e desnorteada diante de uns tubarões azuis que sorridentes, quase alegres e brincalhões, desfrutavam divertidos o prazer daquela peleja que sabiam que as leis da indústria do futebol sempre lhes proibiria o escândalo de vencer, mas que mesmo assim, ou por isso mesmo, continuavam gozando o desespero de uma equipa que sabia que por boas os más razões teria que ganhar para que a festa da Copa pudesse continuar sem percalços, enquanto viam o Vozinha vulgarizar o seu astro maior toureando-o a seu bel-prazer. 

E se pensarmos que o árbitro preferiu ignorar uma bola na mão para assim validar o golo da vitória argentina, logo saberemos que dia deverá ser escolhido para dia dos tubarões azuis. Porque é verdade que o cânone ocidental é poderoso, porém não que continuar a ser o único válido para nós que não lhe pertencemos.   

PUB

PUB

PUB

To Top