
Por: Silvino da Luz *
Acredito (com 100% de fé) nas nossas capacidades nacionais, enquanto agentes políticos, económicos, sociais, culturais e desportivos. Acredito no bom-senso do povo cabo-verdiano, a despeito das tormentas pretéritas e dos constrangimentos prevalecentes, em construir um futuro melhor e mais justo.
Acredito (com 100% de fé) que Cabo Verde, pela resiliência, tenacidade e talento dos cabo-verdianos tem sido, a cada momento histórico, com altos e baixos, avanços e recuos, a realização do sonho que levou a que abraçássemos diferentes gestas – a da luta de libertação, a da independência nacional, a da reconstrução, a da “democratização”, a da transformação e da participação coletiva no processo de desenvolvimento, ainda em aberto.

Homenagens
E é com esta crença que quero dedicar estas linhas a Mário Semedo e a toda a Federação Nacional de Futebol, aos treinadores de diferentes épocas com quem estive mais próximo, com destaque para Lúcio Antunes no passado (CAN 2013), ao humilde mas grandioso e exemplar Bubista (esta COPA, 2026), sem minimizar nenhum outro, à equipa técnica no geral, aos nossos gloriosos Tubarões Azuis por tudo o que representaram paradigmaticamente, no tocante aos valores sublimes que incarnaram do desporto nacional designadamente e futebol em particular, ao Bubista e Vozinha, pela amizade que a eles me liga e vem de há muitos anos e por tudo o que por todo o Mundo são destacados quando se referem à equipa cabo-verdiana e à sua participação nesta memorável Copa. E a admiração que tenho por todos os futebolistas cabo-verdianos e pelos seus feitos é, com certeza, ainda mais antiga.
É com assaz crença que assinalo e aplaudo, como justa e merecida, toda a homenagem do Estado de Cabo Verde aos Tubarões Azuis, depois da extraordinária prestação nesta Copa do Mundo FIFA 2026. Faz todo o sentido que aos nossos “heróis do futebol” sejam outorgados pelo Presidente da República a Medalha Amílcar Cabral, Primeiro Grau, a mais elevada condecoração do Estado de Cabo Verde.
Saúdo, igualmente, muito vivamente, a iniciativa do Governo do País, em criar oficialmente o Dia dos Tubarões Azuis e de inclusão do Futebol Nacional como uma das prioridades desta XIª Legislatura.
Razão deste posicionamento
Por que me posiciono publicamente? Antes de mais, pela minha afeição pelo futebol desde a infância à adolescência, tendo sido futebolista aquando da juventude em São Vicente, tanto na seleção do então Liceu Gil Eanes, como no Castilho e, sobretudo, na Académica do Mindelo.
Afora isso, tenho apadrinhado modesta e discretamente iniciativas comunitárias e outras, na convicção do potencial cívico do futebol no seio da nossa juventude. Considero-me, por isso, nas linhas de frente entre os entusiastas dos Tubarões Azuis, mesmo antes de se tornarem este fenómeno global que honra toda a Nação cabo-verdiana.
Tenho acompanhado a Seleção Nacional ao longo dos anos e, com os seus integrantes, assim como toda a equipa, técnica e autoridades da Federação, venho mantendo relações de afeto e respeito com toda a convicção.
Assim tem sido nos vários campeonatos e nas diversas digressões, com destaque para a minha presença na Taça Africana das Nações, na África Austral, altura em que servia como Embaixador de Cabo Verde, sedeado em Luanda, mas acreditado em países dessa região do Continente, altura em que a prestação da nossa Seleção Nacional surpreendeu a África e o Mundo.
Foi para mim particularmente grato e honroso, o convite da FCF para assistir aos jogos da seleção cabo-verdiana, particularmente na sua estreia no Campeonato do Mundo frente à Espanha, atual campeã europeia e vice-líder do ranking mundial da FIFA, em Atlanta, Geórgia, com a presença do Presidente da República de Cabo Verde, momento extraordinário a que não cheguei a tempo, mercê de um inaceitável atraso na diligência ao necessário Visto e a uma burocracia e exigências que não fazem jus ao tipo de relações entre o nosso País e os Estado Unidos, um dos anfitriões da Copa e onde participavam os Tubarões Azuis.
Indescritível a emoção que senti, com paralelo a raros momentos da minha trajetória existencial e histórica, ao assistir da Tribuna aos jogos de Cabo Verde com o Uruguai e com a Arábia Saudita, respetivamente em Houston, Texas, e em Miami, Flórida, fazendo parte da expressiva presença de cabo-verdianos, levados dos quatro cantos do mundo, colorindo as bancadas de azul, entoando nos estádios o Hino de Cabo Verde e cânticos sobre os Tubarões Azuis, transbordando os instantes, por sinal inesquecíveis, com efusiva alegria e confiança perante as televisões do Mundo inteiro, afirmando a Caboverdianidade, representando a África com dignidade e compartilhando a morabeza crioula como prova de Humanidade. Indescritível a emoção que também senti, estando em Lisboa, no Estádio do Restelo, comungando de tal onda azul, que não se espraiará senão num devir glorioso, e ao jogo com a Sérvia, no qual prenunciava a saga vitoriosa dos Tubarões Azuis para esta temporada histórica.
Para além de fortalecerem o bom-nome e a reputação de Cabo Verde na esfera global e de ampliarem a coesão nacional, tanto dentro do nosso Arquipélago como com a vasta e dispersa Diáspora, os Tubarões Azuis, se colocados numa plataforma de economia dinâmica, fomentarão receitas, empregos e Desenvolvimento. (..) Diante de 1% de chance e de pretensas improbabilidades, o resguardo de 100% de fé e venham, pois, novas respostas da Nação Global Cabo-verdiana e do Estado de Cabo Verde


Djuntamon em prol dos Tubarões Azuis
Por isso, uma vez mais, permito-me opinar e apelar. Seria desejável, a meu ver, que as autoridades cabo-verdianas e a classe empresarial no país, ponderassem no atual contexto e conjuntura juntar esforços, complementando-se (Governo e Federação em particular, sobretudo quando a Federação receber acima de 25 milhões de USD, como prémio da participação dos Tubarões Azuis na Copa) e esforçando-se na mobilização para criação urgente de recursos, que sabemos vão minguar, para dotar o ecossistema futebolístico nacional de “meios e instrumentos” à altura das expetativas criadas e dos desafios a enfrentar, nomeadamente nos quadros da CAN em África e Copas a virem, para iniciar a preparação desde já do futuro e da próxima Copa em 2030 quando, facto único na vida do Mundo do Futebol e que fica escrita para a História com letras de ouro, por tudo o que representamos, fizemos e provas deixadas escritas com suor e orgulho pátrio e para o bem dos valores sublimes do desporto mundial, dizia, quando a FIFA nos premeia com a presença e entrada direta sem disputa de eliminatórias na Copa de 2030, que se disputará em Portugal, na Espanha e em Marrocos.
Que referências eloquentes e que responsabilidades acrescidas sobre as instituições desportivas, os destaques que nos foram galardoados, como a instituição do prémio Vozinha, a ser distinguido nas copas mundiais desde agora ao futebolista que nas competições se destacar pela sua maneira de estar e qualidades morais e éticas durante essas exibições, não necessariamente só pelo valor da sua qualidade técnico-desportiva!
Quero saudar ainda, nesta ocasião, o exemplo extraordinário de entrega a Cabo Verde que a todos nos deram os atletas comandados e treinados pelo sereno Bubista, particularizando, em nome de todos os nossos briosos jogadores, o guardião da baliza cabo-verdiana, o Vozinha, neste momento um dos mais notáveis que passou pela Copa 2026.
Estes atletas, nascidos e criados, uns nas ilhas, outros na diáspora, hoje representam o génio cabo-verdiano. São representantes de todos quantos, ao longo da nossa História, amam Cabo Verde e querem torná-lo grande e respeitado no Mundo. São nossos embaixadores itinerantes e de boa-vontade. São ativos da Nação que Amílcar Cabral sonhou e projetou para que fosse um caso de sucesso.
Para além de fortalecerem o bom-nome e a reputação de Cabo Verde na esfera global e de ampliarem a coesão nacional, tanto dentro do nosso Arquipélago como com a vasta e dispersa Diáspora, os Tubarões Azuis, se colocados numa plataforma de economia dinâmica, fomentarão receitas, empregos e Desenvolvimento. É neste sentido e com esta visão que também devemos todos trabalhar, na minha humilde perceção.
“Cabo Verde para todos”
Apesar das dificuldades com que normalmente estamos confrontados, especialmente com a Governação orientada para um “Cabo Verde para Todos”, com novas prioridades de crescimento económico e de harmonização social, há que ter em mente o potencial de retorno implícito a um investimento estratégico no Desporto e, em particular, nos Tubarões Azuis.
Para tanto, creio ser imperativo trilharmos esse caminho rumo aos primeiros níveis dos rankings africano e mundial e consolidarmos conquistas eletivas a cada etapa, obviamente acompanhada sempre de todos os complexos mecanismos de resposta às necessidades de tal empreitada.
Cabo Verde, como na Música e nas Letras, encontrou o seu desígnio também no Desporto, futebol em particular, e está a trilhar o seu caminho, fazendo um percurso que orgulha todos os cabo-verdianos e é exemplo internacional, não esquecendo a Seleção Nacional Feminina, a do Futsal, do Basquetebol, do Andebol, do Windsurf e do Kitesurf, assim como os nossos valorosos atletas olímpicos e paraolímpicos. Todos merecedores de resposta do Estado e da Sociedade. No caso em apreço, resposta para que os Tubarões Azuis prossigam, com a mesma energia e a mesma fecundidade, por nossa honra e grandeza coletiva
Diante de 1% de chance e de pretensas improbabilidades, o resguardo de 100% de fé e venham, pois, novas respostas da Nação Global Cabo-verdiana e do Estado de Cabo Verde.
07/07/2026
*Combatente da Liberdade da Pátria, antigo ministro da Defesa, Negócios Estrangeiros e embaixador

