
Por: Jorge Lopes*
Cabo Verde atravessa um tempo de profundas transformações, que coloca novas exigências às instituições e à própria Presidência da República. É olhando para os desafios que temos pela frente que procuro responder à pergunta: porquê José Maria Neves?
O novo tempo e os desafios que coloca
Cabo Verde entra num novo tempo. Não porque tenha mudado a arquitetura das suas instituições, mas porque mudaram as condições em que o país e a sociedade enfrentam os desafios do presente. Há novas gerações, novas expectativas e novas formas de participação e de escrutínio. A circulação da informação acelerou, a relação dos cidadãos com o poder tornou-se mais imediata e exigente e o espaço público tornou-se mais intenso, fragmentado e, muitas vezes, mais emocional.
A estas mudanças juntam-se transformações que não começam nem terminam nas nossas fronteiras. A aceleração tecnológica e a inteligência artificial estão a alterar economias, profissões e formas de aprender. As mudanças climáticas atingem com particular severidade os pequenos Estados insulares. A instabilidade geopolítica e económica torna o mundo mais imprevisível. E aquilo que acontece longe chega cada vez mais depressa às ilhas, condicionando escolhas que fazemos no presente e que terão consequências para as gerações seguintes.
Cabo Verde enfrenta estes desafios a partir da sua realidade própria. Uma juventude que procura espaço para realizar as suas aspirações; desigualdades sociais e territoriais que desafiam a coesão; a necessidade de aproximar as ilhas e reforçar a continuidade do território nacional; uma diáspora que alarga a nação muito para além das suas fronteiras físicas; a escassez de recursos naturais; a transição energética; as transformações demográficas; a necessidade de preservar a credibilidade e a confiança que constituem ativos essenciais de um pequeno Estado.
Uma sociedade mais plural e um debate público mais intenso exigem também instituições sólidas. A democracia vive da divergência e da disputa legítima de ideias, dentro de uma pertença comum.
É neste quadro que deve ser pensada a Presidência da República para os próximos anos: a partir da sua legitimidade, das suas competências e da contribuição própria que pode oferecer ao país.
A questão é, por isso, essencialmente de futuro: que Presidência pode melhor servir Cabo Verde neste novo tempo?
Uma Presidência à altura do novo tempo
As novas circunstâncias exigem saber exercer a função presidencial no quadro que a Constituição estabelece, preservando os equilíbrios que sustentam o nosso sistema democrático. A Presidência da República tem legitimidade própria, competências próprias e uma posição singular na arquitetura do Estado. É a partir dessa autonomia que deve afirmar a sua relevância.
Num ambiente político e social mais intenso, essa relevância não se mede pela quantidade de intervenções do Presidente nem pela frequência da sua presença no debate público. Mede-se pela autoridade que constrói, pela sua independência, pela confiança que inspira e pela responsabilidade com que exerce a palavra.
É neste sentido que a Magistratura de Influência ganha particular importância. Influenciar não é comandar nem substituir-se aos centros de decisão. É mobilizar a autoridade da Presidência para convocar, escutar, aproximar, suscitar reflexão e manter presentes questões relevantes para a vida coletiva. É contribuir para criar condições de entendimento quando as circunstâncias o reclamam e dar expressão a preocupações que atravessam a sociedade.
Uma Presidência assim entendida exige discernimento. Saber falar, mas também saber escutar. Saber interpelar sem procurar dirigir. Estar próxima das pessoas sem perder a distância que permite representar todos. Ter convicções sem fazer delas uma fronteira. E compreender que, em determinados momentos, a reserva institucional pode servir melhor a autoridade da Presidência do que a presença na controvérsia.
Uma sociedade mais informada e participativa espera instituições acessíveis e atentas à realidade do país, mas precisa também de referências que não sejam absorvidas pela velocidade do debate quotidiano.
É também aí que a independência presidencial encontra o seu significado mais profundo: liberdade para ouvir diferentes sensibilidades, dialogar com todos e exercer a função sem ficar prisioneiro das divisões que atravessam a sociedade e a política.
Uma Presidência à altura do novo tempo será tanto mais influente quanto mais souber afirmar-se pela qualidade da sua intervenção. A sua força estará na autoridade que constrói e na independência com que exerce a função
O que me parece distinguir José Maria Neves é a forma como se reúnem numa determinada conceção da Presidência: experiência com abertura ao novo; autoridade com capacidade de escuto; independência com proximidade; conhecimento do país com abertura ao mundo, convicções próprias com disponibilidade para dialogar com quem pensa diferente.
Preservar o que nos une num país mais plural
Cabo Verde é hoje uma sociedade mais plural nas aspirações, nas formas de participação, nas referências culturais e geracionais e nas maneiras de imaginar o seu futuro. Essa diversidade é expressão da vitalidade da nossa democracia, mas coloca também novos desafios à coesão.
O espaço público tornou-se mais rápido e emocional, as redes sociais multiplicaram as possibilidades de participação e a política tende, por vezes, a transformar diferenças legítimas em campos cada vez mais fechados. Falar para quem já pensa como nós tornou-se fácil. Mais difícil — e mais necessário — é falar e ser ouvido para além das fronteiras da concordância.
Num arquipélago, esta questão ganha uma dimensão própria. A unidade nacional convive com a diversidade das ilhas, com diferentes condições de desenvolvimento e com o sentimento de pertença de comunidades separadas pela geografia. E Cabo Verde é uma nação que ultrapassa o seu território: a diáspora faz parte desse espaço comum, acrescentando outras experiências e expectativas à identidade nacional.
A unidade não exige diminuir essas diferenças, mas assegurar que possam coexistir dentro de uma pertença comum que nos permita continuar a reconhecer-nos uns nos outros. Cabo Verde não precisa de pensar da mesma maneira para permanecer unido. Precisa de continuar a conversar apesar das diferenças.
É aqui que a Presidência da República pode exercer uma das suas funções mais valiosas. Pela natureza da sua legitimidade e pela amplitude da sua representação, pode contribuir para manter abertas as pontes entre ilhas, gerações, diáspora, instituições e sensibilidades. Pode favorecer a escuta e o encontro e contribuir para que divergências legítimas não se convertam em ruturas.
Uma Presidência que compreenda linguagens diferentes, acolha preocupações distintas e mantenha uma relação aberta com a sociedade pode contribuir para fortalecer essa pertença comum.
Porque a coesão de uma comunidade depende menos da unanimidade do que de manter aberto o espaço onde as diferenças ainda conseguem encontrar-se.
Uma Presidência com horizonte
Há desafios que exigem respostas imediatas e outros cujas consequências só se tornam visíveis com o tempo. Uma sociedade precisa de enfrentar as urgências do presente, mas também de reservar espaço para pensar aquilo que poderá determinar o seu futuro.
As mudanças climáticas, a transformação tecnológica, as tendências demográficas, as aspirações das novas gerações ou a sustentabilidade dos nossos recursos colocam questões cujos efeitos atravessam gerações. Algumas escolhas que hoje fazemos projetam-se muito para além do horizonte em que foram tomadas.
Uma Presidência da República com horizonte pode contribuir para que essas questões permaneçam presentes na reflexão nacional. Pela sua capacidade de convocação, pode aproximar conhecimento e experiência, colocar gerações em diálogo, estimular a reflexão e dar visibilidade a temas que a pressão do imediato tende a afastar. Não precisa de ter respostas para tudo. Precisa também de saber colocar perguntas antes que os problemas nos obriguem a fazê-las.
Pensar o futuro significa igualmente compreender o lugar de Cabo Verde no mundo. Para um pequeno Estado insular, a dimensão internacional não é acessória. A credibilidade das instituições, a reputação do país e a qualidade das suas relações externas constituem recursos importantes num contexto internacional mais fragmentado e imprevisível. Clima, oceanos, mobilidade, tecnologia, segurança ou desenvolvimento são hoje matérias nacionais e globais ao mesmo tempo.
A Presidência exerce, neste domínio, uma função própria de representação e interlocução. Pode ampliar a voz do país, criar pontes, valorizar a sua experiência democrática e dar expressão às vulnerabilidades e às ambições de Cabo Verde nos grandes debates internacionais. Representar bem o país é também uma forma de defender os seus interesses e afirmar as suas ambições.
Ter horizonte significa, afinal, relacionar o que somos com aquilo que queremos ser. Uma Presidência atenta ao futuro pode ajudar a sociedade a olhar para além da circunstância, antecipar mudanças e manter abertas perguntas que não pertencem apenas ao presente.
Porque preparar o futuro começa, muitas vezes, por vê-lo antes de ele se tornar urgência.
Porquê José Maria Neves?
Definidas as exigências do tempo, a escolha deixa de ser abstrata. É perante elas que devemos olhar para os candidatos. E é perante elas que encontro em José Maria Neves razões para confiar-lhe a Presidência da República.
A primeira é a experiência. Não como acumulação de cargos ou argumento de autoridade, mas como conhecimento do Estado, das instituições, da sociedade cabo-verdiana e da complexidade do exercício do poder. Há uma experiência que se mede pelo tempo e outra que se revela no discernimento que esse tempo produziu. É esta última que mais importa numa função em que saber quando e como agir é parte essencial da responsabilidade presidencial.
José Maria Neves possui também uma capacidade de interlocução que considero especialmente valiosa no Cabo Verde de hoje. Conhece diferentes realidades das ilhas e da diáspora, dialoga com gerações e setores distintos da sociedade e move-se entre a política, as instituições, a academia e a cultura. Num país mais plural, compreender linguagens diferentes e procurar pontos de encontro sem exigir uniformidade constitui um recurso importante para quem deve representar a República na sua diversidade.
A isso junta-se o interesse genuíno pelas grandes questões do seu tempo e a abertura às grandes transformações contemporâneas. Um Presidente não precisa de ser especialista em inteligência artificial, alterações climáticas, demografia ou economia azul. Precisa, porém, de compreender a importância dessas mudanças, estar disponível para ouvir quem as conhece, convocar reflexão e ajudar a colocar o futuro no horizonte da sociedade. José Maria Neves possui essa disposição para interrogar o tempo, dialogar com o conhecimento e relacionar os desafios de Cabo Verde com as transformações do mundo.
E possui capital internacional, feito de experiência externa, reconhecimento e redes de interlocução que lhe permitem atuar com credibilidade. Esse capital pode ampliar a voz de Cabo Verde, construir relações de confiança e afirmar os seus interesses e ambições.
Nenhuma destas qualidades, isoladamente, seria suficiente. O que me parece distinguir José Maria Neves é a forma como se reúnem numa determinada conceção da Presidência: experiência com abertura ao novo; autoridade com capacidade de escuta; independência com proximidade; conhecimento do país com abertura ao mundo; convicções próprias com disponibilidade para dialogar com quem pensa diferente.
O seu percurso conta. O passado pode credenciar uma candidatura; não pode substituir a sua razão de futuro. E a razão pela qual considero José Maria Neves preparado para responder a estas exigências está menos no caminho que já percorreu do que na utilidade que esse capital de experiência pode ter perante os desafios que Cabo Verde tem pela frente.
É por isso que não vejo na sua candidatura uma resposta à medida do tempo que passou.
Vejo uma resposta à altura do tempo que começa.

