O Ministério da Educação não vai anular a prova nacional de matemática, evitando assim abrir um “precedente grave” no sistema de ensino. Alunos do Sal que tiveram o exame anulado e todos que faltaram à prova, desde que devidamente justificado, terão acesso à segunda chamada. Em último caso, os alunos que queiram aumentar a nota podem se inscrever na prova de recurso, diz a tutela.
Na última quinta- -feira, 04, a celeuma à volta da Prova Nacional de Matemática ganhou o seu primeiro capítulo, na ilha do Sal, com a sua suspensão, por decisão local, após se constatar a presença de conteúdos não leccionados.
Os alunos alegaram disparidade entre o programa curricular cumprido nas escolas e a avaliação nacional, com conteúdos até então desconhecidos, assim como um grau de complexidade superior à preparação em sala de aula.
Na sequência deste facto inédito, o Director Nacional da Educação, Adriano Moreno, avançou à imprensa que a tutela não autorizou a suspensão da referida prova, embora tenha tomado conhecimento das dificuldades enfrentadas pelos alunos na sua resolução.
Posteriormente, através de um comunicado emitido no domingo, o Ministério da Educação (ME) garantiu que as perguntas constantes das provas nacionais, de forma geral, correspondem a matérias e conteúdos dos programas das disciplinas em vigor, e que os enunciados são elaborados por professores com disciplina e turmas dos anos de escolaridade sobre os quais incidem estas provas.
A validação científico-pedagógica dos enunciados, explicou Moreno, também é feita pelos professores da mesma disciplina, assim como a grelha de correção.
Para o ME, o grau de dificuldade uma prova nacional, alegado por alunos ou por outros agentes educativos, assim como a eventualidade de uma ou mais perguntas incidirem sobre conteúdos não tratados numa dada turma, não é factor bastante para a suspensão ou o cancelamento da mesma, contanto que as perguntas estejam em alinhamento com os programas da respetiva disciplina.
Para este último caso, reforça aquele responsável, estão previstos mecanismos para a validação e acomodação destas situações, que, a ocorrerem, determinam a desconsideração destas perguntas para a classificação dos alunos abrangidos.
Assim sendo, diz que as provas nacionais continuam a decorrer dentro da normalidade e trata a suspensão da prova na ilha do Sal como ato isolado, “cuja responsabilidade será apurada”.
Aos alunos afectados naquela ilha, informou que está garantido o acesso à segunda chamada da prova, que deve acontecer a 18 do corrente mês.
Escalada nacional e manifestações
A partir de segunda-feira alunos de diversas escolas do país, nas ilhas de Santo Antão, Santiago, São Vicente e Maio aderiram às reclamações relativamente à primeira chamada do exame nacional, alegando desproporcionalidade entre os conteúdos tratados em sala de aula e a avaliação pretendida no teste.
Em São Vicente, estudantes de diferentes escolas reuniram-se junto a delegação escolar, onde solicitaram a repetição da prova, alegando, por um lado, que os objectivos apresentados não condizem com as matérias leccionadas durante o ano lectivo e, por outro, que é excessiva a carga de conteúdos de três anos lectivos ser avaliada numa única prova.
Em conversa com A NAÇÃO, uma aluna de um dos liceus do Mindelo explicou que, apesar de toda a preparação feita antes do teste, foram apresentadas questões não resolvidas na sala de aula “em nenhum momento”. Colocado o problema ao professor coordenador da disciplina, este teria orientado os alunos a deixarem sem resolver eventuais questões cuja matéria não foi leccionada.
“Eu cheguei a pensar que o problema estava somente em mim, mas ao dar uma vista de olhos na sala apercebi-me que a maioria dos meus colegas também não estavam sequer tocando na folha do teste”, contou a estudante, segundo a qual o teste continha fórmulas “nunca antes vistos”.
“A prova não foi o que esperávamos, nem aquilo para o qual fomos preparados. A própria prova já apresentava um elevado grau de dificuldade, pois os exercícios estavam formulados de uma maneira totalmente diferente daquela que nos foi apresentada na sala de aula”, explica outro aluno, da ilha de Santiago.
Para este estudante, a sensação que se ficou é que “quem elaborou a prova não tinha conhecimento” da forma como os alunos foram preparados ao longo do ano lectivo. “Além disso, as perguntas eram apresentadas com uma linguagem muito exigente e complexa. O que todos querem saber é por que motivo a prova foi anulada na ilha do Sal e não nas outras ilhas, uma vez que se trata de uma Prova Nacional”, questiona.
Grau de complexidade surpreende alunos e professores
Na ilha do Maio, o próprio coordenador da disciplina na Escola Secundária Horace Silver defendeu que os exercícios apresentados na prova revelaram um grau de complexidade superior ao esperado pelos estudantes.
Segundo Wilson Mendes, embora a maioria dos conteúdos do programa tenham sido lecionados ao longo do ano, a maior parte dos estudantes enfrentou dificuldades na resolução dos exercícios da prova, que tem um peso de 30% na avaliação final.
Uma professora da disciplina ouvida por este jornal acredita que os alunos têm razão no que toca ao peso de 30% da prova na média final, tendo em conta “uma caminhada de três anos” que deve ser mais valorizada. A mesma questiona, por outro lado, se terá havido um processo de auscultação próximo dos professores que lecionaram os conteúdos para adequação aos objectivos da prova nacional.
A referida professora reconhece que a prova deve apresentar questões exigentes, mas admite, por outro lado, que deve haver um equilíbrio, para que todos os alunos, com níveis diferentes, consigam realizar o exame sem colocar em desmérito o percurso que fizeram ao longo dos anos.
Também em Porto Novo, Santo Antão, pais e encarregados de educação mostraram-se preocupados com o facto de a prova conter conteúdos do 11o ano não trabalhados em algumas turmas. Por outro lado, contestaram, a lista de objectivos colocada à disposição dos alunos representou apenas cerca de 30% da prova.
As manifestações tiveram lugar ainda na ilha de Santiago, na Praia e Santa Catarina, com alunos a exporem os mesmos problemas e a manifestarem preocupações quanto ao peso “excessivo” do exame na sua média final.
Os estudantes defendem a realização de um novo exame ou a redução do peso da prova nacional na sua classificação final.
Natalina Andrade
Leia na integra na Edição 980 do Jornal A Nação, de 11 de Junho de 2026

