O segundo debate deste segundo turno das eleições no Brasil, marcadas para hoje, domingo, 25, entre Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), aconteceu, sexta-feira, na TV Globo, logo após o Jornal Nacional, às 21h15 (23h15 de Cabo Verde). Para muitos analistas, após o primeiro debate, marcado por provocações e desentendimento nos bastidores, a expectativa para o confronto final é alta e poderá definir uma de duas coisas: confirmar a vitória de Flávio Bolsonaro obtida no primeiro turno, ou impulsionar o crescimento que Lula da Silva vem tendo, confirmando uma virada histórica. Na comunidade cabo-verdiana do Rio de Janeiro e de São Paulo, Lula parece já ter a vitória garantida.
A frase que marcou este primeiro debate entre os dois candidatos, na televisão Bandeirantes, ocorrido no passado dia 18, foi o desafiou lançado por Lula a Flávio, no final, para este divulgar publicamente os seus dados bancários e registos telefónicos, “para saber quem é ladrão.” Flávio Bolsonaro, que obteve 47,03% dos votos contra 45,16% de Lula, na primeira volta, respondeu que, “Não tenho nada a esconder”, sem, no entanto, clarificar se aceitava o repto.
Para os analistas e comentadores, na entrevista do dia 17, na TV Globo, Lula da Silva esteve bem nas respostas (menos na defensiva e evitou falar do senador Flávio Bolsonaro), menos ‘irritado’, bastante ‘assertivo’, seguro e enfático, e mais ‘tranquilo’ em relação à sabatina do primeiro turno e demonstrando um grande à vontade nos vários dossiês com que foi confrontado. E terminou lembrando a proposta de 6×1 (semana de 6 dias de trabalho e uma folga que passam a cinco de trabalho e duas folgas semanais), seu grande trunfo na disputa deste segundo turno.
A sabatina de Flávio Bolsonaro (ocorrida primeiro, dia 16) ficou marcada pela fuga do deliberada do candidato às questões, utilizando um sistema chamada de ‘táctica Paulo Maluf’, (antigo prefeito de São Paulo) que consiste em evitar questões desconfortáveis e usando o tempo de antena para atacar adversários e temas fora da pergunta. Uma estratégia que levou Flávio Bolsonaro a evocar o nome de Lula da Silva 33 vezes num debate de 40 minutos. O candidato do PL descartou a hipótese de nomear o irmão Eduardo como ministro das relações Exteriores, em caso de vitória. Mas deixou em aberto a nomeação do pai para algum cargo, dizendo apenas que isso “não está no radar”.
Mudança de estratégias no segundo turno
Para muitos, o resultado – inesperado pelo próprio Lula da Silva – no primeiro turno deveu-se a alguma displicência em relação ao seu adversário. Lula e a sua equipa não avaliaram bem a popularidade de Flávio nem o seu desempenho nas redes sociais, um meio que a candidatura do petista também subavaliou. E logo nos primeiros dias da campanha para a segunda volta das presidenciais era visível a presença mais forte de Lula nas redes sociais.
Novas pesquisas indicam que Lula ganhou terreno estreitando a diferença para o candidato do PL. Para isso contribuiu especialmente o seu desempenho na sabatina e a aprovação do plano que reforma o 6×1, para além de medidas claramente eleitoralistas, como a gratuitidade dos transportes públicos durante o fim de semana. E apesar do seu posicionamento contrário ao fim da escala 6×1, apresentada por parlamentares da esquerda e uma das maiores bandeiras da campanha de reeleição do presidente Lula da Silva, Flávio Bolsonaro não teve outra alternativa se não votar também a favor.
Rio de Janeiro sob tensão
Todos os dias sucedem-se manifestações de apoio a Lula em locais da cidade, como a Cinelândia e outras praças da Zona Centro. A demonstração de apoio a Flávio nas ruas da cidade, pelo menos nas zonas Centro e Sul, é mais tímida, talvez por a cidade ser um bastião do candidato do PL nestas eleições. Mas o governador eleito deste partido, no RJ, Douglas Ruas, mobilizou apoiantes por bairros da cidade como a Tijuca, Praça Seca, Pechincha, Méier, Pechincha, indo a municípios como Maricá, São Gonçalo e Niterói, na região Metropolitana e Baixada Fluminense.
Uma corrida de táxi da Lapa até o Leblon fica por 67 reais, numa final da manhã, com o trânsito apertado em vários pontos da cidade. Mas deixando a Glória e chegando ao Aterro do Flamengo, a viagem ganha fluidez pelo túnel do Botafogo, indo encontrar o incontornável trânsito da Zona Sul, até chegar ao lago Rodrigo de Freitas e finalmente ao Leblon. Marco, o jovem motorista, tem 35 anos e veio do estado vizinho do Espírito Santo. É “capixaba”, como completa o seu nome, visível na placa de identificação colada no vidro do carro. Para ele o pior de tudo na cidade é a insegurança e o aumento dos roubos e assaltos, que ele já testemunhou várias vezes. Conta que tem amigos e família em Portugal e espera poder emigrar também para lá, brevemente.
E Marco tem razão. Nesse mesmo dia (quinta-feira, 15), a pouco mais de 10 minutos a pé do Shopping do Leblon, onde deixou o passageiro, a arqueóloga e professora aposentada, Tânia Andrade Lima, de 81 anos, foi abordada por criminosos depois de levantar dinheiro de uma agência bancária, e atingida por três tiros. Felizmente sobreviveu e o autor, James Dean Chagas Lindoso, do Morro da Coroa, no Catumbi, já foi identificado e está em fuga.
O senhor Rezende tem 69 anos e é taxista há mais de 40. Conta como “tudo piorou com o governo de Lula”, adiantando como o actual presidente “proibiu a polícia de entrar na comunidade e o povo de ter arma de defesa…agora, eles tem arma e nós não.” E critica o facto de Lula da Silva não aceitar que o crime organizado no Brasil (PCC, Comando Vermelho) seja classificado de terrorista, como Trump quer fazer. “O Brasil é o único país da América Latina a recusar, onde já se viu…”. O senhor Albino é neto de portugueses e admirador de Vozinha e dos Tubarões Azuis.
A corrida por Ipanema, Copacabana apanha o trânsito caótico do final do dia pelas ruas frescas e arborizadas plenas de autocarros. Albino têm três filhos, todos formados, informático, enfermeira e assistente social. “Eles todos se formaram e não tinha esse negócio de bolsa-família, agora tem bolsa para tudo e ninguém quer mais trabalhar, para mim está errado, não devia ter bolsa não.” A sua indignação vai para o aumento do custo de vida: “Com um salário mínimo de 1600 reais quem pode sobreviver? Vou com minha mulher no supermercado e nunca fica por menos de 60, 70 reais”.
A Lapa progressista e festiva
Quem também se queixa do desleixo, mas da prefeitura do Rio, são os poucos moradores e os frequentadores do bairro da Lapa, antigo local da boémia, dos poetas, actores e dos malandros do início do século XX. A maior parte dos casarões antigos estão abandonados, apenas o piso térreo está dedicado ao comércio ou à restauração. As ruas são lar de muitos sem-abrigo, ‘morador de rua’, na expressão local. “A culpa também é do Lula, que abandonou o pobre”, diz um dos empregados do restaurante Nova Capela, fundado em 1903, por portugueses.
Mas na janela do velho Bar Brasil, O Alemão da Lapa, fundado em 1906, o jovem advogado Eric mostra as camisolas com a bandeira do Partido Comunista e de apoio ao PT, acabadas de comprar na feira da Rua do Lavradio. Aos sábados, a feira traz movimento e milhares de pessoas para o bairro. Ruas são fechadas e invadidas por esplanadas, lado a lado com lojas de antiquários. Vendedores facturam com bandeiras, camisolas e símbolos de apoio a Lula da Silva. O resto do bairro, a zona suja e degradada durante o dia, com água estagnada e mau cheiro, entre o Circo Voador, os Arcos da Lapa e o bairro de Santa Teresa, transforma-se o início da noite em local de lazer, festa e diversão, atraindo milhares de pessoas. Esquecendo a política e as dificuldades por momentos.
Joaquim Arena

